Puta, mãe e do lar

– Mamãe, você vai ficar fora a noite toda hoje de novo?

Doralice, com lágrimas nos olhos, ajoelha-se em frente a Clarinha e beija sua face.

– Sim, minha abelhinha. Mamãe vai ter que ir trabalhar hoje de novo, mas não se preocupe, assim que os primeiros raios de sol apontarem no céu, eu estarei de volta para você, ok?

– Promete?

– Claro, meu amor! Alguma vez a mamãe já deixou de voltar pra você?

– Não. Mas mesmo assim. Eu odeio quando você tem que ir…

Largo do Arouche, 00:32pm. Sexta-Feira.

O frio corta a carne, congelando o espirito. As poucas vestes de Doralice, não são suficientes para lhe esquentar as carnes magras que reveste seu esquálido corpo. Uma dúzia de cigarros já se ausentara do maço, duas doses de maria mole já passaram o efeito no cérebro e já cumprimentaram o fígado. Outra noite longa. Outra vida sofrida, jogada ao relento, dançando com as sombras de um vale jamais habitado.

Um HB20 prata, aproxima-se. O vidro do lado do passageiro abaixa-se lentamente. Uma cabeça masculina, desponta na calada da noite.

– Hei, você aí… Putinha gostosa. Psiuuu…Hei…

– Oi, amorzinho. Como vai?

– Diz ai, quanto que tá custando esse teu programa?

– Há, meu amor. Depende do que você está procurando!

– Eu tô afim de traçar um rabo hoje, quanto que se faz pra mim essa tua raba gostosa? Tô afim de fuder um cuzinho!

– Desculpe, amorzinho. Eu não faço esse tipo de serviço. Só faço pela frente, oral e masturbação.

– Como assim? Tu não é puta? Não tá aqui parada numa esquina de prostituição, quase uma da madrugada e quer meter o loco, dizendo que não dá a porra do cu? Que puta de merda é você hein?

– Olha aqui. Eu estou trabalhando, não me venha com essas suas ofensas não ok? Se quiser é isso que já te falei. O programa custa 150 reais, por uma hora. Se quiser bem, se não quiser, me faça o favor de seguir teu caminho que tu tá empacando a minha noite.

– Além de puta e ousada é muito filha da puta ainda por cima né? Sua vadia do caralho. Pode ficar com essa merda de corpo porque eu dispenso. Não vou meter meu pau nesta buceta imunda aí não.

Outro carro que segue cantando pneu, outro cliente que se perde, outra humilhação que se acumula.

Doralice fuma outro cigarro, enquanto traga pensa em sua filha sozinha em casa. Será que ela não acordou no meio da noite com outro pesadelo? Será que tá com frio? Com fome? Só espero que ela esteja segura.

Enquanto a fumaça é depositada no ar, as lágrimas teimam em cair, a noite vai caindo mais pesadamente sobre os ombros, e Doralice ainda não tem sequer uma moeda para levar para casa antes que o sol desperte.

Um Corola executivo, na cor preta, rodas aro 19, cromados e alinhados. A lua refletia-se no lustre impecável do carro. Desta vez ao abaixar-se o vidro do lado do passageiro, cabelos grisalhos e uma pele flácida se mostram diante dos olhos de Doralice.

– Olá, querido. Como estamos está noite?

– Estamos bem. Estamos bem.

– Quanto custa o programa?

– 150 reais a hora.

– Hum, não tem como fazer por 100?

– Não, meu amor. Aí você complica pra mim né?

– Tudo bem, então. Como a gente faz? Vamos até um motel? Vamos no carro mesmo, como é?

– Bom, ai você que decide meu amor. Se formos pro motel, são 150 mais o valor do motel, ok?

– Hum…

A porta do lado do passageiro se abriu, e Doralice embarcou. Mesmo com uma certa relutância interna, não há nada o que se podia fazer naquele momento, afinal, contas tinham de ser pagas e sua filha a esperava faminta e solitária pela manhã.

– Como você se chama?

– Eu me chamo Vivian e você?

– Meu nome é Jonas. Mas pode me chamar de Jojô, é assim que todos me chamam. Disse Jonas, com os olhos fixos nas ruas e uma das mãos alisando as coxas de Vivian.

– Tá certo. Eu gostei de Jojô. Jojô é um nome bacana. Você é casado? Tem algum filho Jojô?

Uma freada brusca repentina.

– Não vamos tocar neste tipo de assunto. Nada de assuntos pessoais, ouviu bem? Me ouviu? Berrava Jonas, ao volante, com os olhos em chamas fervescentes fixados nos olhos de Vivian.

Vivian, com medo e sem entender nada, apenas acenou com a cabeça em forma positiva.

Alguns minutos depois de um perturbador silêncio mutuo.

– Olha, Vivian. Me desculpe…Desculpe a minha atitude. É que eu fico bravo com esse tipo de assunto. Mais já passou ok? Já passou. Olha, eu tava pensando, que tal se a gente encostar naquele motelzinho ali e passar uma noite bem gostosa. Que tal? A gente pode passar a noite toda até, eu pago. Sem problema nenhum. Hã, que tal, querida?

– Não precisa ser a noite toda não. Uma hora já está bom.

– Olha, eu já disse que vou pagar está bem? Talvez a noite toda seja melhor. A gente pode até bater um papo, pedir algo para tomar, hã, que tal?

– Apenas guia logo esse carro e vamos acabar logo com isso, ok amorzinho?

A feição de Jonas mudará novamente. Aquele mesmo olhar flamejante de antes apareceu e deixou Vivian preocupada. Esfregando as mãos, a mesma fez uma silenciosa oração e pediu proteção aos seus orixás.

Ao adentrar ao quarto, Jonas trancou a porta e guardou a chave em seu bolso esquerdo, na parte da frente de sua calça. Sorriu para Vivian, que estava próxima a cama, segurando sua pequena bolsa com as duas mãos, enquanto encarava Jonas com um olhar de súplica constante.

– Você está muito tensa. Relaxa, bota essa bolsa ali em cima, tira esses sapatos. Vou pedir alguma coisa pra gente tomar.

– Não, eu estou bem, não precisa.

– Oras, não faça desfeitas. Eu vou pedir dois drinques pra gente e você vai beber, e vai gostar. Tá me ouvindo, hein?

Vivian, assentiu com a cabeça e sorriu. Pensou que era melhor não ser muito contrária ou as coisas poderiam ficar feias pro lado dela. Ela já tinha presenciado cenas parecidas em noites passadas e por sorte divina não acabará mal a noite.

A pequena tv estava sintonizada num canal pornográfico qualquer, enquanto Jonas bebericava seu quinto drinque e levava suas narinas até uma nota de cinquenta reais em formato de canudo e inalava uma carreira média de farinha. Após cheirar o pó, Jonas molhava o dedo indicador na substância e levava até as gengivas, esfregando-as e lambendo-as em seguida. Jonas, suava, ria alto e sem motivos, suas mãos fechavam-se e abriam-se a todo instante, seus olhos estavam extremamente arregalados e furtivos. Nitidamente via-se seu coração pulsar através de suas carnes, tamanho eram suas pulsações.

Vivian, encontrava-se aos pés da cama, encolhida, trêmula, com um punhado de gelo dentro de uma toalha suja, que servia para aparar a ardência de seu olho. Olho este agora avermelhado, após um golpe de punhos fechados desferido por Jonas após uma inalada em uma grande carreira. Vivian só pensava quando tudo aquilo iria acabar. Planejava gritar, pedir por socorro. Mas, ela sabia que de nada adiantaria, pois, seus gritos só se incrementariam aos demais gritos sendo desferido pelos quartos ao seu redor.

– Vem aqui, anda! Corre aqui! Vem cá, eu preparei essa carreira aqui só pra você, HAHAHAHA. Exclusiva pra você hein. Vem cá, anda porra. Vem cá, anda.

– Eu já falei que eu não gosto dessas coisas. Não uso droga.

– E quem foi que te perguntou alguma coisa? Eu não quero saber se você gosta ou não gosta. Eu mandei você cheirar…

Agarrando o pescoço de Vivian com uma das mãos, Jonas esfregou o rosto dela no pó espalhado pelo criado mudo ao lado da cama. Com a outra mão, Jonas deferia palmatórias repetidas vezes nas nádegas de Vivian, que tentava se desvencilhar, que de nada adiantava.

A horas iam se fazendo noite a dentro. Tapas de mão aberta, socos violentos, injurias raciais, puxões de cabelo, cuspidas na cara, chutes na barriga, ingestão de  álcool e cocaína contra a vontade, bebendo as lágrimas salgadas que brotavam dos olhos agora roxos, que rolavam da face calejada de encontro ao peito que sangrava, não apenas de dor, mas sim de decepção.

O sol adentrava pela janela, fazendo Vivian se lembrar de Clarinha. Já passava da hora dela retornar para casa para abraçar e acalmar a menina, mas Jonas encontrava-se sobre seu corpo, roncando, com os pelos do corpo molhados, com as narinas encrostadas de cocaína, o pênis murcho colado em sua coxa, um dos braços pendendo para fora da cama, uma mancha de sangue mesclada com vomito nos lençóis da cama.

Se tentasse sair de baixo de Jonas, era perigoso ele acordar e começar aquela tortura tudo de novo. Se ficasse ali parada sem fazer nada, ela perderia a chance de rever sua filha e abraça-la, enquanto jurasse a menina e aos santos que nunca mais voltaria aquela maldita vida de puta novamente.

11:47am. Largo do Arouche. Sábado. Antes de correr para os braços de Clarinha, Doralice para num posto de gasolina próximo ao seu agora antigo ‘’ponto’’, e pede as chaves do banheiro feminino. Ao abrir a porta, a mesma se depara com um bêbado jogado ao chão, com as calças arriadas, dormindo profundamente. Ela pensa em dar meia volta e sumir dali mas engole a seco a saliva e respira fundo. Passa por cima do homem caído ao chão e se dirige até a pia. Abre a torneira e deixa a água cair sobre suas mãos. Ela vagarosamente ergue a cabeça e olha-se no espelho. Incrédula, ela não crer no que está diante de seus olhos. Uma mulher desumanizada, puída, derrotada. Uma figura que mesmo no reflexo não se reconhece ou se quer exerce uma pequena alma.

Leva a água até o rosto, que o lava ao mesmo tempo que camufla as lágrimas. Ajeita os cabelos, pega alguns papeis toalha e seca o rosto. Passa maquiagem para tentar esconder os hematomas em volta dos olhos. Bota óculos escuros. Coloca a mesma roupa que estava ao sair ás ruas para ganhar a vida na noite passada. Respira fundo. Passa por cima do homem jogado ao chão. Fecha a porta e entrega a chave ao frentista.

– Moça, tá tudo bem com a senhora?

Doralice, sorrir.

– Vai ficar…

Ao chegar em casa Doralice se depara com Clarinha sentada no chão em frente à tv, abraçada com Barnei, seu ursinho preferido de pelúcia.

– Meu amor. Mamãe chegou.

– Mamãeeee…

A menina sai correndo, abandonando o urso de pelúcia ao chão, pulando nos braços da mãe que estava a horas atrasada.

– Mamãe, porque você demorou tanto pra chegar? Quase achei que você não vinha mais pra casa. Eu fiquei tão assustada mamãe.

– Ô, minha abelhinha. Tá tudo bem, agora a mamãe tá aqui. Eu demorei porque a mamãe parou no caminho pra comprar uma coisa pra você.

Disse Doralice desferindo um meio sorriso para Clarinha.

– E o que é mamãe? O que é?

– Abre a mão e fecha os olhos meu amor.

Doralice entrega uma caixa de chocolates da marca Garoto a Clarinha.

– Ebaaa. Chocolate…Você vai comer comigo mamãe?

  – Vou sim meu amor, deixa só a mamãe tomar um banho e eu já volto pra gente comer juntas tá bom?

– Tá bom. Vou segurar aqui comigo a caixa enquanto termino de assistir a esses desenhos. Eu e o Barnei vamos cuidar da caixa enquanto você toma seu bainho mamãe.

Doralice deixa a água suavemente percorrer seu corpo. As lembranças da noite passada fazem com que ela chore sentada no chão do banheiro. As marcas em seu corpo não são nada se comparadas as marcas eternas que agora ficaram em sua alma. 30 minutos se passam e ela ainda permanece ali, com os joelhos encostados no peito, o sangue das feridas esvaído ralo à baixo, e a angustia e preocupação com o que fazer da vida de agora em diante. Uma filha pequena para cuidar, uma casa para manter, sem estudo, sem dinheiro, sem marido, sem família, sem amor, sem dignidade.

Doralice fecha o chuveiro, seca o pequeno corpo de mulher. Se posta em frente ao espelho novamente e tenta achar em si alguma esperança, alguma coragem, alguma saída. Nada!

Preta. Pobre. Semianalfabeta. Tentando viver uma vida desgarrada pelo seio farto do sistema. Um dia após o outro. Semeando derrotas para tentar colher vitórias. Assim como a fumaça de seus cigarros sendo jogados no ar, a vida de Doralice evapora-se de fronte a uma classe que tem seus sonhos massacrados pelo cidadão de codinome:  ‘’privilégio’’.

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5 comentários em “Puta, mãe e do lar

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  1. Narrativa maravilhosamente triste e crua. Eu me senti dentro do depoimento imaginando cena por cena e a tristeza de Doralice. Por instantes fui pego em uma empatia por um personagem fictício e ao mesmo tempo tão comum nas nuances da vida cotidiana. Parabéns pela maneira que desnuda a informalidade da vida.

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  2. Me identifiquei muito com com sua escrita visceral, um soco no estômago, mas que nos faz pensar, refletir! Gosto de histórias assim, a vida como ela é, cruel e dura, Doralice é uma de muitos que lutam por essas ruas no nossa cidade! Feliz por conhecer seu trabalho!

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  3. Doralice, nome doce para uma vida amarga! Vida que, infelizmente, está disseminada por tudo quanto é (des)humanidade!
    Gostei da crueza e dos pormenores descritivos! Levam o leitor a “estar” na cena que vai desenrolando… também ela crua. Como a vida de Doralice! Parabéns!!!

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    1. Muito obrigada, Vitor. Gosto de expor em meus escritos o cru e amargo da vida. Fique a vontade para visitar meu blog sempre que desejar. Com toda certeza irei dar uma lida nas suas poesias diariamente, sem duvidas.

      Curtido por 1 pessoa

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