Cartas para Carolina

Amor,

Eu a estimo tanto. Hoje pela madrugada, pensei deveras em ti. Meu amor, minha graciosa companheira, hoje é um dia de certa angústia admito, sinto meu coração inquieto e as emoções pisotearem minha mente. Uma inquietação toma conta de meu semblante, me remetendo a memórias passadas, a fatos já consumados. Penso em toda a minha vida, exclusivamente sobre as privações de mim mesma. Confesso-lhe, lágrimas rolam quentes face abaixo, inundando o travesseiro. Sabe meu amor, tenho toda uma vida na inconsistência de incertezas, de medos enfadonhos e mutilações emocionais do próprio ser. Está noite, acometida mais uma vez pela insônia, pensei em diversas coisas que reforçaram ainda mais minha madrugada em claro. Lembrei-me de muitas coisas que gostaria de compartilhar-lhes aqui contigo, para que meu peito se esvazie e minha consciência adormeça.

Amor, o que é o amor? Como poderia eu saber o que seria, se nunca em toda a minha vida me deparei com a entrega pelo outro? Como poderia eu saber o que é o amor se nada compadeci ao outro a não ser um enorme carinho e afeto e mais nada? Como eu poderia proferir tanto em minha boca a palavra amor, se atrás destas mesmas palavras, cometia eu a injúria de mentiras e omissões? Penso eu, que talvez eu não soubesse amar, pois em minha infância e adolescência, toda garota que desejei me repudiou ou me ignorou ou até mesmo pisou em meu coração, mesmo sem ter consentimento que eu as desejava, uma vez que sempre me permaneci no silêncio, escondida dentro de mim mesma, aprisionando meus sentimentos e minhas palavras, com um total tormento pelas suas rejeições. Cresci abraçada por olhares nunca dados, por peles nunca tocadas, por vozes nunca ouvidas ou bocas se quer beijadas. Cresci sempre desejando muito, com um fervor que só meu coração saberia lhe dizer, sempre fui bastante desejosa e sonhadora, por mais que hoje eu relute ferozmente por sonhos e pensamentos futuros. De fato, sempre sonhei alto e desejei o mundo no meu silêncio. Não sei se foi a timidez ou o medo de mais rejeições, desaprovação ou o medo do desconhecido, ou talvez, arrisco dizer, o medo de todos estes tormentos juntos, o fato é, que me acomodei nas sombras, e antes mesmo que eu pudesse perceber, me abneguei da vida, de uma forma breve, de uma estadia curta. Sabe, sempre fui muito intensa, sempre senti demais, chorei demais, senti dor demais, imaginei demais, sonhei demais, quis demais, enfim… tudo o que eu almejava era na intensidade, caso não fosse na intensidade dos atos, por certo era na intensidade de minhas palavras. Palavras estas nunca ditas, mas extremamente pensadas e calorosamente escritas.

Lembrei-me esta madrugada de uma cena que nunca me sairá da cabeça; lembro-me de estar com entre sete a nove anos de idade, quando na cozinha da casa de minha madrinha, com minha mãe entretida no fogão, eu apenas uma garotinha, sentada a mesa da cozinha, com um lápis e folhas de caderno na mão, recitava em voz alta uma carta de amor. Uma carta de amor a uma garota da mesma idade que a minha. Eu dizia as palavras e as ia escrevendo em uma carta que eu pretendia colocar em baixo da carteira dela no dia seguinte e aguardar ansiosamente observando de longe sua reação, na infantil esperança que ela mesmo não sabendo quem seria seu admirador secreto, em meus dóceis sonhos, imaginei que ela pudesse me olhar repentinamente e se apaixonar por mim e por minhas palavras deixadas naquela carta de amor. Quão boba eu era, mais sim, já sonhava alto com um amor jamais correspondido. Recordo-me que ao proferir as palavras enquanto redigia a carta, minha mãe ao fundo, virou-se de súbito e vociferou: – Você tá escrevendo que ama uma garota? – Não mãe, claro que não. – Acho bom mesmo. E então, daquele dia em diante, aquela pobre garotinha pela primeira vez em sua vida apaixonada, teve que desaprender a recitar palavras de amor e apenas sentir suas emoções em segredo. Não sei porque essa lembrança me acometeu as ideias hoje, mas foi algo que me marcou e deixa-me tão ressentida e doida quanto a essa quebra de meu tornozelo agora. Outras inúmeras coisas me ocorreram a mente está madrugada, pensei e pensei, tentando me recordar dos fatos do dia em que eu tentará contra minha própria vida, pela segunda vez. Lembro-me perfeitamente que da primeira vez, a exatamente dez anos atrás, eu fui covarde. Não foi algo que deu errado ou não estava na minha hora, eu simplesmente fui covarde. Eu pensava dia e noite em tirar-me a própria vida, mas eu não obtinha coragem o suficiente para cometer tal ato. Cheguei a escrever uma carta de despedida, endereçando todas as minhas coisas a destinadas pessoas, confessando o meu interesse por Carol, uma garota que morava em minha rua, e mais algumas coisas que não me recordo agora. Não é engraçado, que mesmo depois de dez anos eu tentasse cometer o mesmo ato e em despedida da mesma forma, em formato de carta? Será que eu era e ainda sou tão covarde que não tenho coragem de olhar nos olhos das pessoas e me despedir dignamente? Ou talvez seja pelo fato de odiar despedidas? O que importa é que meus suicídios são meus, são minhas escolhas, baseadas numa frieza não calculada, somada a uma dor de invisibilidade e angustia tão perturbadora que eu não desejaria nem ao meu mais odiado inimigo.

Queria poder entender essas coisas que carregamos no espirito da gente sabe? Gostaria mesmo é de entender o que carrego de tão sombrio no meu. Recordei-me que naquela segunda-feira, depois de voltar do almoço ao trabalho, eu não era mais eu. Uma sensação de total angustia, dor, cólera, raiva, insatisfação, pesar, tomou conta de mim assim que eu pisei naquela loja. Claro, a bebida ajudou-me a obter a coragem para cometer tal feito, mas não a culpabilizo inteiramente. Havia semanas que eu vinha sentindo todos aqueles sentimentos, há semanas eu vinha sendo tomada por pensamentos ruins e sensações pavorosas de desespero emocional. Como sempre, guardei tudo para mim mesma, impedindo de mostrar-me para o mundo. Isto para mim sempre foi normal, sempre guardei minhas emoções, fossem elas extremamente boas ou extremamente ruins. Nem se quer conseguia compartilhá-las com você, minha doce amada. Interiormente eu almejava por uma saída, uma paz que eu não poderia alcançar só, mas você bem conhece minha teimosia, e sabes que odeio depender de quem quer que seja, por mais que saibas que sou extremamente dependente. Por fim, ao voltar àquela tarde, eu já não era mais eu, na verdade eu já não era mais eu havia á muito tempo. Há semanas eu intensificara o abuso ao álcool, as drogas, a pensamentos impuros, a vontades de possuir outros corpos, em tocar em outras peles, a sentir outros perfumes, a beijar outras bocas. Sabe, me questiono hoje, porque desta vez a coisa ficou mais intensa, a todos estes anos eu consegui esconder de todo mundo as minhas lamúrias e meus estados depressivos, ou seja lá o que eu tenha. O fato é, que desta vez, não sei ao certo se eu estivera cansada de esconder-me em mim mesma e suplicasse por ajuda ou eu me tornará tão vulnerável mesma contra a minha vontade que nem eu mesma pude perceber. O fato é que, foi diferente. Tudo em mim estava diferente, e infelizmente ainda está. Não me culpo, nem ao mesmo sinto remorso pelo que fiz ou pelo sofrimento que eu causaria a todos pela minha perda, mas é que ainda penso na vida, no amor, nas cartas, nas palavras, nos sonhos, nas vontades e na esperança, como algo inacabado. Sinto que pontuei minha trajetória com reticencias e não botei um ponto final em nada. A corda ainda pende em minha frente, na altura de minha garganta, os comprimidos amarelos ainda são vistos em todos os remédios para a dor, a raiva é vista em todos os olhos voltados a mim, a tristeza é sentida em todas as despedidas e nos momentos felizes, e a dor, a dor não é só física, mas sim, costurada na alma.

Minha Carolina, sei que tudo em nossas passagens terrestres são acompanhadas por um propósito, que somos espíritos divindados por segundas chances e temos a boa ventura de corrigir erros passados, mas remonto-me e bagunço-me novamente, tentando recordar o que eu fizera em vidas passadas que nesta eu vim a corrigir e que erros acometi que hoje me pesam tanto e me fazem sofrer na alma por demais?

Enfim… são perturbações como estás que não só me deixam maluca, como também enlouquece a grande parte dos mortais. Mas, de certa forma, é bom botar no papel tudo o que sente e tirar da mente tudo o que te perturba. Contudo, minha pequena, digo a ti através das palavras desta outra noite não dormida, que tão louca sou em minhas perturbações quanto és a vida perante o cinza frio das cores.

 

Com amor,

Sua companheira para todas a horas.

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