Loba Solitária

Minha cara amada, a dor corrói os ossos, a respiração tarda a refazer-se, a mente agora cansada, desvencilha-se de uma conduta de loucura e insanidade.

Em qual toco eu fui amarrar as minhas bravezas, qual das celas eu fui montar a minha objetividade, em qual páreo eu fui julgar-me um dia merecedora de alguma vitória?

Nos campos brotam-se flores, destas flores brotam-se vidas, destas vidas, outras vidas se fazem e, das vidas que se fazem, mortes são glorificadas como espelhos de ressurreição. Hoje nada me cabe, um tempo que me recolhe como presa de águia, um olhar penetrante da vida que me consome como um falcão extremamente predador.

Sinto agora, neste exato momento, que sou uma novela, uma trama dramática, esperando por um desfecho que nunca poderá ser criado por nenhum roteirista. Uma leve brisa, que passa de capítulos a capítulos, levando com sigo uma vaidade nula. Eu interpreto pesadamente um personagem que jamais poderá ser descriado. Um baile, daqueles das grandes cortes, à fantasia, com requintes de mistério e cheiro de melancolia que embalsama os castelos.

Há dias não olho a rua, não chego nem sequer perto da janela para avistar as vidas, não olho muito longe a não ser para o mesmo ponto fixo que se encontra nas redes veladas destas janelas. Passa dia, vai-se dias, uma caixa de sapatos se reflete em lar. Conto as horas, perco-as, retomo a contar os grãos… Passo os dias a olhar para as prateleiras, com vontade de tirar o pó, de mudar as posições das garrafas, de reorganizar os livros, de arrancar este infantil papel de parede, há dias que eu olho este quarto e não o vejo mais em mim. É tudo uma bagunça, eu sou uma bagunça, um monte de brinquedos esparramados num caos meramente organizado. Em qual estação da vida eu deveria estar? Sinto a incapacidade crescer dentro de mim no mesmo tempo em que fisicamente vou me tornando mais forte, mais resistente, mais operante. É certo dizer, uma grossa camada de um enorme vazio reveste esta pobre alma, uma grande bolha inodora revestida por pedaços de um quebra-cabeças desorganizado, é isso o que eu sou. As vozes não se calam, os olhares não cessam, a dor não se recolhe, a empreitada da solidão não se deita para dormir.

Uma lágrima cai. Outra dor no peito que martela o silêncio, suplica por liberdade jamais alforriada em mim. Penso eu aqui em você, tento imaginar teus olhos ao ler estas linhas. Aposto que você as lera tão rápido que no instante seguinte as esquecerá do mesmo modo como você sempre esquece uma luz acessa ou como sempre esquece de fechar as portas. Gostaria que desta vez você pudesse guardar esta carta junto com as outras, pois sempre que eu lhe escrevo, é somente na esperança de eu mesma poder rele-las num futuro distante. Sinto em lhe dizer que não procuro de forma alguma curar coração partido, encher alter egos, resplandecer felicidade, engrandecer olhos apaixonados ou fazer um amor crescer, se quer que isto seja possível. Busco apenas lembrar-me de mim no passado, relendo meus feitos num futuro acolhedor ou nebuloso. Fases de mim, brincando como dados marcados num parecer. Me açoito sobre os mares de meu mar de águas rasas e arrisco-me dizer que onda será forte o bastante para me levar para o fundo, o fundo de traição perverso, o fundo de águas agitadas desgarradas de um terror doentio….

Cara amada, sei que para ti nada destas palavras fazem sentido, tudo não passa de um caça-palavras com paroxítonas nunca acentuadas, longas anedotas sem escárnio de remotas alegrias. Devo concordar, tudo em mim não passa de joio e trigo que jamais darão em grandiosas colheitas. Sei bem o quanto está cansada de me provar o contrário, o quanto me engrandece, e o quanto tenta furtivamente mostrar-me o meu valor, o meu lugar no mundo, o meu acento ao sol, mas sabes amada, para o espetáculo de minha vida eu não comprei os convites para tal peça. Posso conseguir tudo, ser tudo, amar ao mundo, me sentir parte, mas nunca, nunca, jamais me sentirei completa. Sempre meus escritos trarão cólera nas mais profundas diretrizes, por mais que os dias sempre nasçam com cores quentes e vivas. Todos os amores da vida. Todos os prazeres carnais ou imutáveis do mundo. Nada do que eu seja ou tenha, será o bastante para mudar meu intimo solitário.

As vezes sou como um lobo abandonado, as vezes sou como caçador na matilha…

Eu jamais obterei uma felicidade instantânea ou prestigiosamente eterna, tudo o que eu sou predestinada a ser é acometida de solidão.

Meu bem, espero que você possa entender, eu te amo, do meu jeito rude, mas eu lhe amo, sou muito grata a ti por sempre me alavancar nos obstáculos da vida, serei eternamente grata por cada doação do seu olhar, por cada palavra dita em silêncio e principalmente por cada prece a mim feita em oração. Nada nunca será o bastante, mesmo o topo da mais alta montanha, ainda assim será um impacto de pequeno efeito, não há nada que você possa fazer, não há nada do que eu possa fazer, não há nada que os cosmos possam conspirar ao meu favor.

 

Com amor,

Sua loba solitária.

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5 comentários em “Loba Solitária

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    1. Então na verdade eu tenho o costume de escrever cartas para minha namorada discorrendo sobre meu sentimentalismo amargo e as infelicidades da vida. Coloco cinza em tudo o que escrevo acho que é por isso que fica tão forte hahaha

      Curtido por 1 pessoa

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