Sua doce menina

Querida amada, meu útero se contorce numa raiva descomunal. Nas veias o sangue borbulha, espirrando um liquido quente e altamente inflamável. Sinto a dor como um orgasmo interrompido, e praguejo para deus uma maldição tão fudida, que nem mesmo ele possa converter essas palavras.

Raiva hoje. Raiva amanhã. Raiva para sempre.

Faz sol lá fora, céu azul com muitas nuvens brancas… é estranho, só visualizo dor em cada uma delas. Hoje não será um bom dia, pois a lástima pela presença em vida me consome. Sabe, hoje foi dia de consulta com a psicóloga, e eu falei que estava tudo bem, e está? Ou eu queria que estivesse?

Portais insistem em se abrir perante meus olhos, acarretando-me de memórias que um dia foram banidas. Malditas lembranças, eu as amaldiçoo!

Me revejo a todo momento presa dentro de uma caixa, cercadas por almas vazias e pré-dispostas ao suicídio social. Quem sou eu?

Infelizmente a cena de uma de minhas depressões não descola de minha mente, pensei em dizer isto o tempo todo para a psicóloga, mas as palavras emudeceram-se na garganta.

Fim de tarde, sol preparando-se para dormir no horizonte. Um quarto escuro, garrafas de bebida aos montes vazias. Um telefone. Lágrimas em formato de riacho. Dor. Raiva. Medo. Solidão.

– Você é uma criança infantil e mimada, e eu te odeio por isso.

– Vi, não fala assim comigo porra!

– Você tem que ir embora como todas as outras. Vai, me abandona. Me deixa viver a sós comigo mesma, eu não preciso de você.

– O que está acontecendo? Por que você tá agindo assim?

– Todas que passaram por essa cama já se foram, você será só mais outra que será velada nas memórias de meu travesseiro.

– Eu não sei o que eu fiz pra você, sinceramente, eu não estou entendendo nada. Eu te ligo pra dizer que tô com saudades e queria estar ai contigo e você ai, toda grosa comigo, dizendo coisas sem sentido. Você bebeu, Vi?

– Porra, que mania do caralho que você e todo mundo tem de culpar a porra da bebida. Tudo eu bebi. Tudo eu tô bêbada. Por que diabos você e a merda do resto do mundo não podem aceitar que simplesmente as vezes somos apenas nós mesmos e isso não tem nada a ver com merda externa nenhuma? As vezes estamos tão fadados ao desespero que precisamos nos afogar em mares com risco de vida. As vezes choramos de raiva, as vezes de felicidade. As vezes odiamos nossas mães, as vezes queremos mata-las. As vezes queremos ter a todo momento por perto nossas namoradas, mas elas estão tão longe que sofremos por esta maldita ponte invisível. As vezes nos cobramos tanto de nós mesmos que esquecemos de sorrir. As vezes bebemos tanto só para nos sentirmos mais forte. As vezes nos drogamos só para criarmos um outro mundo fantasioso em nossas cabeças. As vezes transamos com outras pessoas e depois nos sentimos um lixo humano por isso. As vezes desejamos quem nos despreza e, as vezes queremos morrer, mas não sentir nada antes da despedida.

– Vi… Vi… eu não sei o que dizer. Eu não sei o que está acontecendo com você. Eu queria estar ai com você mas é complicado agora. Fica bem por mim? Por favor?

– É, eu sei que pra você tá complicado agora. A porra da vida toda sempre tá complicada demais pra você. Aposto que você descomplica sua vida rapidinho com ela né?

– Do que você tá falando, Vi? Ela quem? Você enlouqueceu, só pode!

– Quer saber? Vai se fuder. Vai se fuder você e ela. Você nunca esqueceu ela, fica alegando que são somente amigas, mas quando tá complicado pra mim você tá dando pra ela.

– Vi, que porra é essa?

– Foda-se, Mariana. Foda-se!

A noite chegou. As garrafas secaram. O choro correu desgarrado face abaixo. Pensei em cerrar os pulsos em lâminas cegas, mas não. Hoje não valeria à pena.

Olha, eu não sei porque esta memória me assombra a dias. Não só assombra como sufoca. Mas eu não consigo fugir, eu não consigo falar, eu não consigo dormir…

Hoje por pouco eu vi o dia nascer, mas antes de adormecer eu já sabia, que ao despertar, não seria um bom dia.

Raiva hoje. Dor amanhã. Lembranças para sempre.

Com amor,

Sua doce menina.

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