Com amor, seu picolé barato

Carolina, cimento meu próprio estômago com fel amargo para poder encobrir uma devastação gigantesca de incredulidade.

Tudo me cansa, as vezes me sinto vazia como um projétil de arma perdido nas vielas, vez ou outra me sinto vazia como a mente de alguns imbecis.

Hoje é um daqueles dias quentes do ano e desde a hora que despertei da minha jornada de quatro horas de sono, venho derretendo aos poucos desde então. Quem me vê, até diz que me assemelho com um picolé barato, daqueles que a gente paga dois reais mas sabe que no fundo não vale tudo isso.

Hoje eu estava meio ácida, feroz e com a língua sem papas, como você costuma dizer: igualzinha à minha mãe, dona Marta, reclamando de tudo e falando mal do serviço dos outros. Desculpe-me por ser tão velha e amarga como mamãe, é que dias de temperaturas elevadas me transformam em pessoas que eu odiaria ser.

Depois que te deixei no trabalho, me dirigi para casa avida por algo gelado e um ventilador potente, já não suportava mais minha camiseta ficando amarelada em baixo do braço e minha bermuda me surrando, implorando para ser um número ou dois maiores.

Assim que entrei em casa, fui direto para a geladeira mamar no bico uma garrafa d’ água estupidamente gelada e em seguida com a garrafa em posse, corri para meu quarto, abrindo rapidamente as janelas e ligando o ventilador no último. Suspirei aliviada por um pouco de ar fresco tocando minhas carnes quentes. Então, desabotoei a bermuda, tirei a camiseta, tomei mais cinco ou seis goles d’água até quase me sentir uma orca prestes a explodir. Após me segurar para não morrer em pedaços espalhados pelo quarto todo e pelo jogo de cama recém trocados, fitei minhas prateleiras em busca de algum livro que eu ainda não tivesse lido.

Como é doloroso passar e repassar os olhos em busca de uma boa escolha e não encontrar uma novidade, um livretinho se quer que você já não o tenha lido de cabo a rabo. Dói.

Bom, resolvi reler; Cartas ao Pai, de Franz Kafka e na segunda página do livro a única coisa que vinha na minha mente era escrever; Cartas à Mãe, de Maria Vitoria Francisca. Iria dar um bom pano para a manga, afinal, verdades dolorosas e lamentações é o que não me faltam.

Quando já me encontrava na página de número vinte e dois, meus olhos salpicavam e uma pesada sonolência desejava tomar conta de meu ser. Fechei o livro, deitei esparramada sobre meu braço esquerdo, porém, tomando todo o cuidado do mundo para que meus pés pretos de sujeira das ruas não tocassem nas fronhas do travesseiro. Eu sei, eu sei, eu deveria ter me levantado e ido lavar meus pés pretinhos de sujeira, mas por acaso você já ouviu falar na senhora, Fadiga? Então, prazer!

Tentei dar uma boa cochilada, o ventilador me refrescava, a água havia me hidratado, o sol que entrava pela janela tinha se ausentado e a casa estava vazia, até o gato dormia solenemente nas cadeiras da sala de estar.

Me concentrei e fechei os olhos, apesar do sono tive que fazer um esforço danado para conseguir dormir. Eu lembrava do quão saboroso estava o macarrão com almondegas e feijão que havia comido no almoço, mas que mesmo delicioso, ele tinha me deixado tão cheia que quando eu estava a caminhar ao seu lado hoje nas ruas, por diversas vezes preferi rolar do que ter que utilizar as duas pernas para me locomover. Eu pensava também em sair de casa e ir até a Biblioteca Municipal, no centro da cidade. Pensava que horas minha mãe chegaria e começaria com aquele carnaval fora de bloco que ela faz toda vez que volta para casa do trabalho, todo aquele barulho, toda aquela falação e todo o pedido para fazer um café no meu quarto, já me deixava com raiva e ainda mais vontade de sumir daquela casa o quanto antes.

Quinze minutos depois, a chuva começa a cair lá fora, gotas e mais gotas vorazes fazendo barulho enquanto se grudavam em minha janela. Levantei, tomei mais dois goles d’água, cocei a barriga enquanto olhava o céu desabar envolto por nuvens cinzas, magicamente desenhadas para nos deixar com vontade de cometer suicídio ao olhá-las, de tão feias e deprimentes que eram.

A varanda. A comida do gato. As fezes do gato. A porra do gato. A varanda estava toda molhada e as coisas dele ali expostas, virando sopa rala. Eu o odeio, mas também não sou tão fã assim de sopa. Retirei suas duas tigelas de ração da varanda e botei para dentro de casa, mas deixei a caixa de areia dele lá fora, nem fodendo que eu ia tocar naquela merda toda. Resolvi tomar um banho, mas lembrei que o chuveiro estava quebrado desde o dia anterior, porém não me zanguei, afinal, estava um puta calor e uma ducha gelada até que iria cair bem. Tomei um banho de gato, daqueles que você entra, mas na sequencia já sai vazado. Botei as mesmas roupas, dei uma cheirada e não estavam fedidas, a camiseta branca do Bukowski estava meio encardida mas dava para passar batido. Arrumei a mochila e botei dentro um livro que minha mãe trouxe na semana passada da Zibia Gasparetto. Eu adoro os livros dela, adora ler tudo o que ela cita a respeito do espiritismo.

O começo do livro é promissor, conta a história de uma mulher de 38 anos, negra, pobre, que vive se lamentando de sua pobreza e da vida desgraçada que leva, e ainda por cima é meio depressiva e nunca namorou. Muito ‘’eu’’ neste livro, tirando o fato do namoro o restante parece que conta a história da minha vida. Trocadilhos a parte, ganhei as ruas e peguei o ônibus Jardim Bonfiglioli, que passa em frente do prédio e parava em frente a biblioteca. Cheguei por aqui mais ou menos por volta das 18:45. Passei pela sessão de literatura brasileira e peguei, ‘’Crônicas Escolhidas de, Lima Barreto’’. Subi ao andar de cima e passei pelas sessões de: escravidão, ética, filosofia moderna, cidadania, psicologia, jornalismo, história e moda. Mas, não achei nada que me desse tesão e fiquei só com o saudoso Lima, mesmo. Porém, ainda não o abri para ler.

Calor, muito calor, muito calor aqui dentro. Eu sabia que deveria ter deixado meus óculos em casa, nesse calor eles me fazem suar ainda mais debaixo dos olhos, sem contar que as lentes sempre ficam embaçadas quando a temperatura do meu corpo está muito elevada. Enfim, calores à parte, você deve estar se perguntando, porque diabos eu atravessei a cidade todinha para vir até a biblioteca e não ler um livro se quer? Gozado, também me questiono sobre isso. Mas, na verdade eu sempre costumo fazer esse mesmo trajeto algumas vezes por mês só para sentar aqui no segundo andar, colocar os fones de ouvido com a música no mudo, observar os grandes vitrôs que dão vazão as ruas e escrever…

A maioria das cartas que eu te escrevi foram feitas aqui. No calor, na fome, com a bunda quadrada, com os fones no mudo, com o caos da cidade através dos vitrôs e o relógio me mostrando que já se passaram mais de três horas que eu estou aqui pensando em você, me confessando contigo através desta carta.

Enfim, saudades.

Com amor,

Seu picolé barato.

 

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13 comentários em “Com amor, seu picolé barato

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    1. Minha narrativa é como uma fotografia. Tento passar ao leitor tudo o que eu vejo e sinto, é como uma foto sendo observada ou um quadro sendo pintado.
      Obrigada por seu comentário, sinta-se à vontade para voltar sempre que desejar. Tenha uma ótima noite de sono.

      Curtido por 1 pessoa

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