Fragmentos sobre ELA

Sinto o peso que os calafrios me trazem quando penso no amor como algo novo.

Logo eu, que prometi a mim mesma nunca mais entregar meu coração solitário nas mãos amputadas de alguém sem complacência com os sentimentos alheios. E olha eu aqui, escrevendo sobre a novidade que nos engasga toda vez que pigarreamos sobre os efeitos de outra pessoa em nós.

Dia desses durante um frio das montanhas cavernosas, senti algo tocar minhas coxas, canelas e pés. Algo macio e felpudo, tão quente que deu vontade de mastigar e forrar um estômago cheio de fome. Você riu, eu elogiei seu sorriso, mas como eu sou idiota nem percebi que tudo o que você estava fazendo era tirar sarro de mim e da minha ingenuidade. Você roçava aquele troço quentinho em mim, primeiro nos pés, depois nas canelas e subia devagarzinho pelas coxas. Eu gostava muito daquela coisa felpuda, quente e macia por ali naquelas regiões, até me mantinha prestes a querer acasalar com sua temperatura febril, mas a única coisa que você sabia fazer era rir, rir e me alisar, como se o meu aparente tesão fosse motivo de sátira.

– O que afinal é tão engraçado?
– Nada. Hahahaha
– Mais que porra garota, que diabos você esta fazendo nas minhas canelas?
– Fazendo carinho em você.
– Então, qual é a graça?
– Meias rosa para dias frios.
– O quê?
– Hahahaha… Meias rosa para dias frios.

Joguei as cobertas para o alto. Sim, meias rosa e felpudas para aquecer os pés em dias de temperaturas baixas e amenas.
Dia veio e dia foi, e todo santo dia uma meia diferente calçando os pés quase transparentes dela. Ursos, borboletas, cobras, cachorros, gatos, azul, branco, amarelo, verde, e etc… Tem meias para todos os gostos e adaptações. Tecnicamente, por mais que eu ache isso meio desnecessário, ainda mais para alguém na idade dela, mesmo assim eu acho tão fofo que não há outra coisa a se fazer a não ser escrever sobre as meias de adaptações dela. Meias estas que ela ganha periodicamente da mãe dela ou ela pega da irmã mais nova dela. Sabe como é né, garotas e suas particularidades?

Se fosse apenas as meias dela que me tornassem idiota estava bom, mas ainda tem a gula dela por docinhos, docinhos infinitos e de todos os tipos. Docinhos ao acordar, docinhos para trabalhar, docinhos antes da aula, docinhos porque esta triste, docinhos porque esta feliz, docinhos porque esta com tesão, docinhos porque esta em seu período menstrual, docinhos quando esta lendo coisas, docinhos quando esta brigando comigo, docinhos quando esta fingindo ser um doce mas na verdade esta sendo grossa pra caramba, docinhos quando esta calçando suas meias coloridas, docinhos em dias de sol, docinhos em dias de chuva, docinhos em suas orações, docinhos com docinhos, docinhos por amor aos docinhos, docinhos, docinhos, docinhos.

Falando sobre os doces dela, me lembro claramente que ela degusta ainda mais açúcar e aditivos quando esta com seu modo defensivo no botão ”On/Off” ligado. Cara, como esse modo é complicado. Chega a ser mais complicado do que aquelas fases de vídeo game que a gente tem que encarar um puta chefão fodido e tenebroso, e a gente gasta todas as nossas vidas, nossos corações, nossos nervos, nossa criatividade, nossa fé, nossos dedos e todo nosso juízo, mas mesmo assim a gente não zera o jogo e nunca acaba de uma vez com o maldito filho da puta. E, pensando bem aqui comigo, ela é ainda pior que jogos de vídeo game em fases finais.
Digamos que ela é a rapadura mais dura de ser comida, o aço mais resistente de ser soldado, o coração mais duro de ser quebrado, a bebida mais forte de ser tomada, a poesia mais difícil de ser escrita, o cadarço mais complicado de ser amarrado, a piada mais indecente de ser contada, a viagem mais longa de ser feita, o inverno mais longo de acabar, a neve mais demorada de derreter, o livro mais doloroso de terminar, a foto mais impossível de tirar, a gripe mais eterna de passar e o fragmento mais problemático de juntar. Sim, é ela.

Olha, eu já tentei fazer de tudo. De tudo mesmo para quebrar as barreiras invisíveis dela, mas é algo tão impossível, mesmo sendo algo imperceptível aos olhos nu, pois ela se esconde tanto num casulo próprio que britadeira nenhuma por mais forte que seja, consegue romper o casco que ela mesma construiu na longa metragem da vida. Afinal, tantos momentos de solidão eterna, dor, angústia, desprazer, violação, desgosto, medo, feridas, lágrimas e por ai vai… Fica até meio impossível não se voltar para dentro de si mesma e se isolar de todas as tentativas de amores novos que a vida faz questão de esfregar nas cicatrizes feitas a base de sal grosso e limão.

Eu juro que tentei no começo até pular fora de todo esse furacão que é ela, correr pra bem longe só para não ter que a ver destruindo o meu telhado ou botando abaixo minhas paredes internas revestidas de tijolos e fragilidades, mas não consegui, tentei mesmo, juro que tentei com todas as forças que o medo do novo pode trazer, mas a única coisa que eu consegui fazer foi ficar cada vez mais próxima das barreiras dela e esperar que algum guarda abaixasse a própria espada e me deixasse invadir sua fortaleza terrestre.

Às vezes eu me pego passando horas me lamentando e me chamando de trouxa, falando comigo mesma sobre as decisões que eu tomei e bebendo vodka barata com cerveja choca, e a única conclusão que eu consigo chegar é em lugar nenhum e ainda nem bêbada eu fico, porém eu consigo tirar uma lição de tudo isso. E o conteúdo aprendido aplicado na sala da vida é: Corra para as montanhas o mais depressa possível e calce botas de solas resistentes e não se esqueça do seu casaco de lã de carneiro sintético, pois uma tempestade de icebergue vem aí, e Aline é o nome dela.

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8 comentários em “Fragmentos sobre ELA

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  1. Gostei muito! O coração é traiçoeiro, ainda que a mente saiba que não vai dar certo, o coração nos leva a aceitar outras mãos amputadas sem carinho. Continua a brindar teus amigos com estes artigos que são deveras de intercâmbio de encorajamento. Beijinhos!

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  2. Gostei! O trecho adiante é bem legal ‘Às vezes eu me pego passando horas me lamentando e me chamando de trouxa, falando comigo mesma sobre as decisões que eu tomei e bebendo vodka barata com cerveja choca, e a única conclusão que eu consigo chegar é em lugar nenhum e ainda nem bêbada eu fico,”

    Curtido por 1 pessoa

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