Mãe, eu sou lésbica e parcialmente feliz.

Lembra aquele dia que você me obrigou a usar um vestido justo e curto e verde de alças finas, e eu chorei como se o mundo fosse acabar numa morte trágica e fatídica, então, mãe?

 
Olha, eu nunca te expus a certas verdades e a certos fatos da minha vida, nunca fui de levar problemas para você. Sim, eu sempre fui ótima em esconder certas coisas, ainda mais quando tais coisas se tratavam da minha vida afetiva ou da minha sexualidade. Você sabe, nunca falamos de sexo, você tem vergonha né?
Nunca falamos de dramas, você não gosta né? Nunca falamos de como você se sente, você é frágil né? Nunca falamos de como eu me sinto, você não me conhece né?
Então, primeiramente mamãe, olá, como vai você? Eu? Eu vou indo, vou quebrando nozes nos vãos das portas e olha, eu nem gosto de nozes. Há, me desculpe isso é outra coisa que você não sabia sobre mim.
 
Mamãe, eu nem sei bem como te deixar a par dos fatos, afinal, eu sempre fui sua garotinha tão esperada, tão mimada, tão querida… Você sempre sonhou tão alto por mim, sempre fez planos gigantescos, bem maiores que meus próprios sonhos. E isso não é ruim, entenda. Mas sabe, são apenas os seus próprios sonhos utópicos derivados de uma vida que foi roubada de si mesma.
 
Mamãe, te entendo, você sofreu tanto, sua vida foi uma completa tragédia, uma constante senzala, mas sabe mãe, apesar de seu desejo efêmero de sermos eternas melhores amigas para sempre, sempre, e eu disse sempre… Sempre estaremos sós, buscando uma ligação inexistente. Sinto muito por isso, mas é que a vida roubou tanto minha própria identidade que até hoje, com quase vinte e sete anos, ainda procuro ser o que talvez jamais serei.
 
Estava aqui pensando comigo mesma, lembra aquele dia que eu disse a você que não gostava de garotos e que minha paz estava na companhia das garotas? Ou naquele dia que eu toquei na mão de outra mulher, que era minha namorada na época e você sabia e mesmo assim você me repreendeu e exigiu que eu me escondesse do mundo? Ou naquele outro dia que você me ouviu dando um beijo em outra mulher e ficou sem olhar na minha cara por uma semana. Ou até naquele dia que você pediu para eu ir viajar sem minha aliança porque nossa família não poderia saber que eu amava outra mulher. Sabe mãe, aquele dia eu desejei te odiar por você me impedir de ser apenas eu mesma, mas não era certo, você me ensinou a não odiar porque o ódio é um ato pecador.
 
Mamãe, você não sabe, mas eu já me relacionei com tantas mulheres e com tantos homens, mas isso não define nada, eu apenas me relacionei com pessoas e isso não tem nada a ver com sexualidade ou questões de gênero, tem a ver com escolhas de compatibilidade e escolhas do coração. Sabe, nada contra os homens, mas eu amo mesmo de coração as mulheres. Mulheres e suas particularidades, mulheres e suas maneiras de abraçar a vida como quem tem apenas um minuto de estadia na terra antes da morte.
Eu as amo mamãe. Amo seus sorrisos, seus jeitos meigos e gentis, suas posturas, seus modos de destruir um coração complacente de culpa, suas perspicácias, seus olhos sorridentes, suas bocas brilhantes, seus corações carentes, seus dramas eternos, seus jogos de polícia e ladrão, seus corpos gloriosos, suas mãos macias, suas vozes doces, seus afagos serenos, seus sonhos gigantes, seus empoderamentos, enfim… Eu amo o fato das mulheres serem elas mesmas e isso é tudo o que eu tenho.
 
Eu nunca amei ninguém perdidamente, mas sim, me apaixonei por algumas. Se bem que toda minha falta de amor e entrega é derivada do fato de ter medo de ser apenas eu. Do medo de caminhar as ruas e reparar nos olhares, de tocar e ser repreendida com alguma praga religiosa, de olhar e ser xingada, de dizer que amo e ser esbofeteada ou pelo fato de me olhar no espelho e não me sentir completa e feliz, ou ainda, pelo simples fato de sempre te ouvir dizer:
 
– Você parece um homem.
– Muda essa roupa.
– Arruma esse cabelo.
– Ajeita essa postura.
– Coloca um vestido.
– Bota uma maquiagem nessa cara.
– Isso é só uma fase.
– Meu sonho é te ver de branco na igreja e com filhos.
– Você só fala merda.
– Você não sabe o que quer.
– Eu preferia não ter tido você.
– Você só me dá desgosto. Porque você não nasceu normal?
– Para de trazer mulher pra dentro de casa. Vai ficar com essas garotas na rua, num motel, bem longe daqui.
– Todo mundo vai ficar comentando; olha lá, a filha da fulana, que sapatão.
– Se você é tudo bem, mas ninguém pode ficar sabendo.
– Pra que ficar postando foto, escrevendo coisas, as pessoas comentam e isso me deixa triste.
 
Sabe mãe, isso também me deixa triste e frustrada, porque a senhora não faz ideia de tudo o que eu tive que passar e do caos que eu tive que enfrentar para chegar até aqui e tentar dia após dia ser o que eu realmente sou. Você não sabe quantas ameaças eu sofri, de quantas coisas eu fui xingada, de quantos olhares de reprovação eu recebi, de quantas mulheres eu tive que abrir mão, de quantos empregos eu perdi, de quantos “amigos” que se foram, de todas as vezes que tentaram me corrigir, de quantas vezes as pessoas me disseram que eu ser eu era errado, de todas as vezes que a depressão falou mais alto e de quantas e quantas vezes eu pensei em me matar e desistir, porque eu estava sozinha e você nem ninguém estavam nem ai, afinal, eu, a problemática, a estranha, a dramática, enfim… A invisível.
 
Você não sabe como é olhar no espelho e se sentir bem e confortável, mas ter que se restringir a isso porque alguém não gosta do jeito que você é ou da maneira como você se aceita. Quantas e quantas vezes eu pedi a Deus para me livrar de todo esse fardo que era ser homossexual, mas ele não me atendeu e eu segui sendo o que de fato sou. Muitas pessoas me odeiam sabe? Você diz que me ama, que não entende o que eu sou, mas que aceita, naquelas… Mas ambas sabemos que você é como todas as outras pessoas que veem apenas carcaça antes de enxergar a plenitude de nós mesmos. Mas tudo bem, eu sigo levando, afinal tanta coisa já aconteceu comigo que eu nem sei mais o que falta pra acontecer. Suicídios vieram, depressões se foram. Mulheres vêm e vão. Infelicidades são constantes. Lágrimas são frequentes e solidão, a solidão… Essa é a minha melhor amiga, para todo sempre.
 
Se tem uma coisa que eu aprendi com você mamãe, é ser uma mulher forte. Seja apenas por ser eu mesma ou por esconder parcialmente minha felicidade pelo resultado da soma de nossos sonhos.
 
Enfim… Mãe, eu sou lésbica e parcialmente feliz.
 
Com amor, estranhamente.
 
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17 comentários em “Mãe, eu sou lésbica e parcialmente feliz.

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  1. Uma revelação. Adoro revelações! Um texto muito sensível expressando a dor por estar à margem, apesar de todo um esforço para sair dela. Posso compreendê-la: é um trabalho árduo romper com as tradições estabelecidas.

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    1. Relações são complicadas. Alguns padrões são difíceis de serem mudados mas seguimos fortes e escrevendo sempre, dando vazão as coisas do coração e da mente. Obrigada por seu gentil comentário Mari, tenha um ótimo dia mana.

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  2. Olá, Maria, você escreve muito bem e põe nas palavras a sua alma, toda o seu mundo, o que é característica dos grandes escritores, raridade hoje em dia. Posso imaginar o quão difícil deve ter sido a sua vida – e continua sendo – mas, a vida é mesmo isso, inconstâncias e confusões.

    Estranho, mas talvez todas essas coisas que passamos, por mais difíceis que sejam, é o que faz valer a pena o fato de ainda estarmos aqui, porque nesse meio, nas entrelinhas, sempre nos surge algo de bom que aflora em nossa alma e nos mostra que algumas barreiras só existem se permitirmos que elas nos impeça de alcançar o que tanto desejamos: sermos unica, e completamente nós mesmos.

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    1. Géssica, gratidão eterna por suas palavras. Este comentário é como um abraço que a gente sente mesmo de longe. Obrigada pelas palavras e fico feliz que tenha gostado da minha sensibiliade.
      Sinta-se á vontade para me visitar sempre que desejar Gé. Tenha um ótimo dia!

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  3. Olá Maria, admirei sua soltura, leveza, sensibilidade e a beleza da escrita não sendo prolixa e sem dar nota de avenida, senão o necessário entranhado no seu coração demonstrando sua coragem.
    Cada um tem sua história guardada em sua memória, cujo subconsciente em tempo hábil emite descarregando seu conteúdo.
    Esteja certa de que o Deus que a criou está no seu encalço olhando para esse coraçãozinho, amenizando suas dores. Que Deus seja a sua sombra. Abraço!

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    1. José, muito me felicita o seu tão privilegioso comentário. São palavras iguais as suas que me dão vazão para a escrita e forças para continuar minha jornada. Gratidão eterna pelo seu carinho e que deus nos guie e nos fortalece sempre. E sinta-se a vontade para voltar ao meu blog sempre que desejar. Tenha um ótimo dia José.

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  4. Nossa, me identifiquei tanto! É doloroso quando percebemos que a pessoa que deveria estar ao nosso lado desde o princípio é a primeira a nos virar as costas.
    Parabéns pelo texto, me tocou muito.

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  5. Admiro quando pessoas admitem que são parcialmente infelizes, parcialmente solitárias, parcialmente não realizadas. Outro dia escrevi um texto de uma ode à solidão. Foi muito bacana. Aceitação é tudo na vida.

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