Crônica cinza de primeiro de Agosto

Cansada. Com fome. Parafusos espanados roçando no tecido de um All Star que há tempos não é mais branco.

Hoje eu tinha planos. Pensei em transcrever alguns áudios e transformá-los em vídeo poemas. Queria começar o primeiro dia de Agosto com um texto novo no blog e seguir uma corrente sequencial de postagens todos os dias, me obrigar a ler e a escrever uma coisa nova todo santo dia nem que tudo se resumisse a apenas um ponto e uma vírgula. Não consegui transcrever nada, um dever diferente me chamou. Um antigo colega de trabalho me ligou e me pediu uma ajuda e lá fui eu…

Separar tipo, montar capa, fazer isso, fazer aquilo outro, oito horas de pé, tornozelo em recuperação suplicando por descanso, dedos grossos de poeira e sujeira, ombros tão pesados quanto pedras amarradas em corpos de desova em rios de águas inabitáveis.

As quatorze horas sai para comer alguma coisa e depois fui dar início ao meu tratamento espírita. Passei no antigo, cinquenta, que hoje é um e cinquenta e pedi três salgados para a viagem. Após a primeira mordida, concordei comigo mesma do porque eu ainda frequentava a mesma casa de salgados desde 2008. O gosto de magia misturado com uma pitada de açúcar dentro de um recheio salgado. Era o paraíso, o preço aumentou, mas ainda continua um pedaço do céu a cada nova mordida.

Hoje, pela primeira vez desde que retornei ao Ceme, não tinha comigo um livro para leitura antes da preleção. Sempre gostei de levar comigo Bukowski ou algum livro seminovo de algum sebo, mas hoje sai tão apressada pela manhã…

Eu tinha acabado de sair do banho, lavado o cabelo quando meu colega ligou. E lá vai eu finalizar o cabelo, passar difusor, caçar uma roupa confortável, botar na mochila um suéter, três bisnaguinhas, deixar minha garrafa com cheiro de conhaque pra lavar na pia, procurar uma garrafa nova pra levar um pouco de suco de laranja, implorar para o gato sair do meu caminho, lembrar de fechar as janelas, pegar um dos lenços de bolso que Carolina me deu, acionar o botão do elevador, terminar de me arrumar no espelho, passar correndo pela recepção dando um bom dia silencioso e ganhar as ruas rumo a gráfica Rio Pequeno.

A ministração foi agradável, mas senti um sono terrível e quase cai da cadeira umas três vezes durante a palestra sobre o “Capítulo XVIII, 1 a 2. Parábola da festa de núpcias – O Evangelho Segundo O Espiritismo.”

Dezoito horas subi a ladeira correndo, atravessei correndo no meio do tráfego, um ônibus quase me pegou, um carro me xingou, tentei correr mais um pouco mas meu tornozelo em recuperação travou. Que dor do caralho, maldito dia que fui misturar antidepressivos com remédios. Bom, mas isso já é outra história…

Antes de voltar para casa deixei um par de olhos e meu perfume na estação do metrô, enquanto o vagão seguia sentido Tucuruvi, fiquei ali plantada, com as mãos no bolso, um sorriso malandro, os pés pulsantes, um estômago semi vazio e uma única certeza: – Nada é tão cansativo que não possa virar uma crônica cinza de primeiro de Agosto.

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4 comentários em “Crônica cinza de primeiro de Agosto

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