Escravidão do séc XXI

Mamãe tem 52 anos. Trabalha para um branco há quase dezessete anos. Mamãe nunca teve férias ou décimo terceiro salário. Mamãe não sabe o que é feriado, natal ou comemorar meu aniversário.

Mamãe trabalha muito. Carregou até saco de cimento nas costas e rebocou paredes. Pegou chuva forte e enfrentou tempestades. Trabalhou até de madrugada para o patrão poder lucrar com sua fiel servidão.

Mamãe foi humilhada e procrastinada, taxada até como amante do patrão. Mamãe não entendeu nada, pois sua relação com ele era só servidão e gratidão, nada de sexo em troca de pão.

Mamãe o serve de domingo a domingo, quando não é no trabalho é em nossa própria casa. Mamãe diz que tem dó dele, pois esta velho, não consegue carregar peso, já sofreu cinco infartos e sua esposa não liga para ele.

Sim, ok. Todo o conforto que temos hoje é proveniente do dinheiro dele, mas sem esquecer que antes do lucro dele é o suor dela.

Odeio a situação da mamãe. Ela há anos não vive a própria vida antes de ter que viver a dos outros. Mamãe já apanhou na cara, já passou fome, já engoliu a seco o pão que o diabo amassou por causa da exploração e abuso de patrão.

Mamãe tem um sonho, sonha em ser uma grande chefe de cozinha, mas ela tem medo que seus sonhos não sejam o suficiente para pagar o aluguel. Ela morre de medo de ser jogada ao relento com seus dois bebês. Eu também temo por ela. E para piorar a situação, sou uma garota depressiva/suicida.

Mamãe não come e não sorrir. Não dorme e não vive, só sente dor, limpa, cozinha e serve. Ontem o patrão da mamãe disse para ela procurar outro emprego e seguir sua vida, pois ele não tinha dinheiro para pagar o que lhe devia, não podia a mandar embora porque ele estava falido. Em pensar que ele tem mais quatro funcionários que sempre recebem seus salários no dia certo, tiram férias e pegam seus décimos terceiros.

Eu sempre disse pra mamãe que essa relação não era uma boa coisa, mas ela dizia que tínhamos que pagar o aluguel e que debaixo da ponte ou numa favela ela não iria morar.

Mamãe tem 52 anos e me pediu para ajudá-la a criar um currículo e enviar através da internet para as pessoas, que ela estava com as contas todas atrasadas e precisava pagar os mil e oitocentos reais de aluguel, pois seu patrão teve a pachorra de dizer que ela precisava seguir sua vida sem nem comentar o tempo de casa que ela o serviu, as noites em claro que ela passou ao lado dele no hospital e todos os anos de sua própria vida que ela dedicou a ele e ao seu comércio, antes mesmo de se dedicar aos filhos.

Mamãe anda triste, fraca e perturbada, me corta o coração e de certa forma me sinto culpada. Mamãe nunca passou pela antiga escravidão e já nasceu com sua carta de alforria, mas mamãe não sabe, mesmo com o fim da escravidão africana, ela foi e sempre será, nada mais, nada menos, do que uma negra escrava do século vinte e um.

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