Por que ficamos tristes próximo da meia-noite?

Eu sou a ruína. Aqui sentada em um carro parado entre a estação Pinheiros e a estação Butantã. Não é exagero, mas, uma música seguida da outra é melancólica e eu sinto uma extrema vontade de chorar por horas. Tenho um pequeno lenço em meu bolso traseiro esquerdo, mas não gostaria de usá-lo. Eu poderia facilmente ficar aqui estacionada chorando durante horas a fio ouvindo uma depressão lírica atrás da outra.

O tornozelo dói sem dó. O sapato aperta com ódio. Maldito dia que eu escolhi pra usar sapatos. Sapatos femininos pretos. Eu nunca uso sapatos, são desconfortáveis. Tudo é desconfortável além de tênis e chinelo. Porém, ainda ninguém superou as meias quentes em dias de inverno.

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Imagem autoral

Caminho, tenho de caminhar. Caminho rumo a uma saída existencial. Observo as respirações cansadas e os semblantes tristes dos que por mim esbarram e me sinto ainda mais prestes a desabar. Por que costumamos a sermos tão infelizes e cabisbaixos quando a meia-noite se aproxima? Será que é cansaço? Morte na família? Divórcio? Filho doente? Reprovação em alguma prova? Término de namoro? Dedão na quina da mesa? Bilhete sem saldo? Pacote de internet limitado? Cerveja quente? Falta de saneamento básico? Um governo golpista? Desigualdade social? Fedor nas axilas? Tomate podre? Chuveiro queimado? Falta de chuva? Ou será que estamos pré-condicionados a sermos tristes perto da meia -noite porque a tristeza não é cortada de nós assim como nossos cordões umbilicais ao nascermos? Tudo é de se pensar…

Peguei um ônibus que vai me fazer andar até chegar em casa ao invés de ter esperado por outro que parava na porta de meu prédio. Já são quase meia noite e minha barriga implora por algo salgado sem sobremesa. Meu corpo pede uma retirada de pele através da água. O sangue que se forma entre minhas pernas coagula de um jeito maldoso. Tudo pesa. As orelhas pesam. O turbante pesa. A camisa masculina pesa. A aliança pesa. O óculos pesa. A bunda pesa. O coração pesa. A existência pesa. Como não?

Viver é uma dádiva para quem troca a noite pelo dia mas é um fardo grande de batatas para quem sente necessidade de chorar quando a lua cheia desponta e a meia-noite brota.

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8 comentários em “Por que ficamos tristes próximo da meia-noite?

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  1. Talvez porque seja o momento em que na maioria das vezes estamos sozinhas e tiramos nossas máscaras. Apesar de todos os incômodos é um momento íntimo, só nosso; como dividi-lo com outra pessoa? A existência é pesada, e mais para aqueles que lutam por ela. Gostei muito do seu texto. Um abraço.

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  2. A senhora e muito abusada nessas suas configurações de realidade. Tudo pesa em dado momento, ainda mais quando a nossa camada fina ou espessa de derme carrega aquela porção mais generosa de ar. Somos afetados por tudo e transbordamos no papel. Cheguei a conclusão de que vivemos menstruadas.

    bacio

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