Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

Olá, amada!

Já notou como as paredes são frias?

Por dias inteiros tudo corria bem, eu conseguira produzir uns bons capítulos de meu novo romance, e não, dessa vez eu não escrevi um livro inteiro sobre você. Poderia? Sim, poderia. Mas… Desta vez não fui capaz de escrever sobre as flores que você me dava ou sobre a brancura de sua pele macia, pois, especificamente nessas últimas duas semanas a luz não brotou através da janela e tudo o que eu pude acompanhar de perto, trancafiada nessa casa solitária foi a escuridão, uma grande massa de ar frio alojada em meus pulmões e uma negritude louca para abocanhar meus medos.

Lá estava eu, debruçada sobre as folhas rascunhadas tentando concertar uma cronologia de espaço-tempo há meses fracassada. Por toda a parede recortes de pessoas, fragmentos de personagens, ao chão livros antigos e clássicos empilhados um a um. Na cama, uma quantidade razoável de whisky, vodka, vinho, conhaque, cerveja, licor… As cortinas fechadas, nenhuma gota de sol no ambiente, apenas velas e mais velas e mais velas…

Se você estivesse aqui, aposto que diria algo do tipo: “A modernização passou longe daqui hein?” ou “Não sabia que eu estava casada com uma mulher das cavernas. Abre essas janelas, me deixe ver a luz…”

Nada dava certo, um bloqueio criativo eminente me rondava há dias… As velas se apagavam, outras velas se acendiam. Tomei inúmeros goles numa tentativa de fazer algo em mim despertar de uma maneira que pudesse salvar uma criação perdida, morta, estarrecida… Por dois dias seguidos me trancafiei dentro de um quarto a meia luz tentando alcançar algo que jamais poderia sequer ser tocado por mãos humanas.

Você pode imaginar como é sentar-se perante o escuro e abraçar os próprios joelhos numa posição tão desconfortável que tudo o que você almeja é a morte eminente?
Achei que eu estivesse louca. Totalmente – não “sã”.

Velas apagavam-se sequencialmente. Paredes juntavam-se em forma de calabouços frios, estômago rugia de forma febril incompassível de cura, o medo estancava cicatrizes individuais solitárias cravadas numa pele esquecida pelas jazidas de uma luz solar… Nada de alimentos, tudo o que eu tinha era o ardor do álcool roçando os tímpanos, mastigando as metáforas de meu cérebro. Você pode imaginar como é descontente amanhecer na primavera desejando a escuridão de olhos bem abertos?

Toco as paredes gélidas. Calço meus órgãos de cal, cimento e bebida. Trago fumaça licita e ilícita, para dentro de meus pulmões podres. Cuspo sangue dias sim; morte seca odorizada de enxofre dias também. Tudo meio caótico e soturno não?

Estou aqui a lembrar, das crises fudidas existenciais e das cordas penduradas nos batentes, dos seus olhos estarrecidos e amedrontados toda vez que teus pés quase pálidos adentravam nossa falecida e harmoniosa casa de campo, das tuas mãos ágeis de encontro aos nós, das tuas lágrimas perante as cartas de despedida, de sua caixa torácica inflando e murchando perante aos meus suicídios, dos teus abraços acolhedores, porém, com tantos medos transitórios que acabavam me deixando ainda mais perdida perante uma escuridão de masmorra.

Sinto muito pelas crises. Por todas as tragédias. Os abandonos. As cordas. As laminas. O álcool. Idas e vindas em hospitais psiquiátricos. Todas as cartelas de tarja preta. Litros de dinheiro gasto. As pontes enumeradas. Os cadeados quebrados. Terapias em casal. Noites de insônia. As garrafas quebradas. Os cortes nos pulsos. As tentativas de homicídio. O rancor do aparato materno. As noites nas ruas do centro. O sexo desprotegido. As mentiras falsificadas . As cicatrizes. As agressões físicas. Todas as traições. Os mamilos queimados com resquício de velas. Uma coxa inteira retalhada por cacos de vidro. Os atropelamentos intencionais. Inúmeras quedas nos vãos dos trilhos. Pedidos intermináveis de perdão. Bíblias rasgadas e flores mortas em vasos inexistentes de água.

Porra! Estou aqui agora sozinha de olhos abertos para a escuridão e tudo o que eu posso dizer é: As paredes são frias, porém não tanto quanto as lágrimas que debruçam o colo de alguém arrasada pela vertigem do espaço-tempo.

Com amor,
Negrume.

 

 

  • Projeto Scenarium Plural – Missivas de Primavera
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