Eu – Fragmentada

Copos brilhantes com estampa de unicórnio. Homem negro de joelhos expondo um mini livro de meditação budista. Sapatos verde musgo. Vozes sedentárias chafurdando um milésimo de dignidade no lixo.

Fumei dois cigarros. Não fumo.

Então alguém me diz:

– Tá fumando pra caralho hein Vitoria.

E eu digo:

– É. É. É.

Meus seios gotejam um suor acalorado. As axilas estão prestes a fazerem tranças de rapunzel. Só hoje, já tomei meia dúzia de cervejas Brahma na promoção e comprei dois caças-palavras.

A língua fica pegajosa e saliente. Posso sentir o fedor de câncer transitando por meus poros juvenis.

Reluto ao fato de dizer para uma mulher a palavra: saudades.

Vejo pregos saírem de uma superfície e desejo imensamente que alguém martele um pouco de minha mente em frangalhos.

“Hey, humanidade. Sinto minhas pernas falharem após olhar para um céu que não contém estrelas.”

O estômago grita por tons de liberdade. E essa liberdade precisa de algo sustentável e ao mesmo tempo forte o bastante para não abandonar o pouco da fortaleza que há em mim.

Olho para o meio de mim e miro num vaso de porcelana por diversas vezes, mas nunca é certeiro o bastante, em todas às vezes eu saio meio termo urinada.

Uma mulher branca de cabelos tingidos de loiro sentada ao meu lado em cima dos trilhos gesticula de forma voraz, enquanto alega que outra mulher é vagabunda demais para assumir determinado cargo empresarial.

Hoje, me sentei em bancos semi-macios, esperando uma senha de número 1870. Meu objeto dizia: extremamente frágil, mas a senhora de 65 anos o etiquetou como se fosse uma postagem simples de âmbito resistente.

Tomei um banho de milho. Meu contato para drogas ilícitas enrolou no percurso mais uma vez.

Um bocado de mim estava presente na aula. Outra metade de mim estava afim de sexo selvagem e violento.

No momento, não tenho ninguém para foder. Não tenho ninguém que também me foda.

Salsichas em águas temperadas aguçam minha fome enquanto em meus bolsos possuo dois reais e trinta e cinco centavos.

Deixo quatro livros do ensino fundamental numa estante comunitária. Mulheres de bolsas floridas mastigando salgadinhos industriais voam para longe de mim.

Me banho com a temperatura escaldando um terço do meu dia.

Durmo as cinco e cinquenta e oito da manhã com gosto de cinzeiro na boca.

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