Pensão alimentícia

Uma mãe chora com seu filho no colo no calor de setembro.

O menino, silencioso, observa seu próprio reflexo cabisbaixo em uma das portas do vagão.

Ao redor, pessoas perdidas rumo a suas felicidades nada utópicas. Continue lendo “Pensão alimentícia”

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O jardineiro e sua tesoura

O jardineiro caminha no meio da multidão com sua tesoura de podar flores.

Trás em uma das mãos, uma toalha ensanguentada, cobrindo um ferimento profundo.

Alonga-se enquanto seus fones se encaixam nas orelhas e os raios de sol atravessa sua boina cor de carne.

Lá se vai o jardineiro, com sua mão negra escorrendo sangue.

Cabeças rolaram bem diante de minhas vistas. O jardineiro desapareceu.

Olho-me no reflexo e tudo o que eu vejo é o jardineiro abrindo um pequeno caderno de mão com revestimento vermelho e um botão dourado.

O observo…

Retiro da mochila o meu caderninho de mão: escrevo sobre o jardineiro; mentalizando sua tesoura, sendo segurada por uma das mãos.

Cerveja, panelas e tragédias

Cá estou a me lembrar da noite passada, das pernas trançando os encantos, dos óculos a serem limpos na echarpe branca, dos sapatos pretos brilhantes com laços nas pontas, da mochila com pedras suspendida nas costas, dos cachos macios com aroma de saudade, do elevador coberto por colchonetes azuis, da propaganda em cima das mesas da praça, das bocas lambuzadas de queijo, da ponte e do resgate, dos carros passando em nossas costas, do malte gelado, das crianças gritando para nós: “que inveja”, do garoto de oito anos com seu saco de cola, das digitais tocando as espinhas da pele, das lágrimas rolando em coro, da suplica pelo permanecer perante o abandono, das farpas trocadas, das magoas vomitadas ainda mornas, do banheiro público, dos olhares no espelho, da saudade bagunçada, do plano de fuga, dos pelos pubianos, do odor de sexo, do olho cutucado por dedos, da palavra: “masturbação em voz alta”, da chuva, do final de semana morgado, do fast food, dos cantos do metro, dos casais homossexuais, da mulher transexual, da esmola que não tínhamos, do frio cortando a carne, das omissões, da culpa, do julgamento, das horas avoadas, da cueca sambando dentro das calças, dos bombeiros e seus narcisismos, das câmeras apontadas para a tragédia, do estacionamento, dos bares lotados, dos cobertores sobre as cabeças, das panelas das casas bahia, da sede de se dormir junto, da vontade de adentrar o motel, dos seus seiscentos e treze outros amores, do jeito rude, do modo dramático, das sacadas, dos monumentos, da história, do teatro, das aulas da vida sendo deixadas em branco, do samba, dos ponteiros dos corações, do flagelo das nossas atuais relações, do medo, da escada rolante, das linhas de cores opostas, dos trilhos contínuos e do céu: negro como piche, claro como as estrelas.

A ligação que nunca consegui finalizar

Embaraço as palavras do mesmo modo que embaraço o sorriso e camuflo o olhar.

Às vezes não é perceptível, mas seria tão mais fácil se de longe você pudesse sentir que meus instintos procuram por você.

Alguém diz: “Você está esperando por alguém?”

E eu digo: “Não.”

Alguém diz: “Tem certeza?”

E eu digo: “Absoluta.”

Por que mentimos para nós mesmos? Por que ao menos para nós não podemos escancarar a verdade?

Esse é o mal do século. Esse grande esconde-esconde individual. Continue lendo “A ligação que nunca consegui finalizar”

O cara do toque e o cego pião de madeira

Sentou uma – levantou uma. Sentou duas – levantou duas. Sentou três – levantou três.

Partiu apressado, agarrado a sua bolsa transversal, por pouco não tropeça em seus cadarços desamarrados de seu All Star vermelho. Um homem atrás de mim ao telefone o observava espantado. As pessoas entravam e saiam dos vagões e o observavam, desnorteadas e confusas. Eu lia meu livro. Continue lendo “O cara do toque e o cego pião de madeira”

Um noivado se aproxima

Os peixes nadam em minhas tripas alimentando-se de suco gástrico,

Afogam as mágoas em meus rins e depois emergem na superfície de meu coração.

ENO! Não adiantou, fervilha, mas não me cura.

Os arrotos são constantes e mandinga de vó preta nenhuma espanta.

Peixes em meu estômago.

Borboletas com asas desbotadas em minha boca.

Não sei o que é pior, estar triste e pesada após uma refeição tradicional das sextas-feiras ou estar apaixonada pela mesma mulher a mais de três anos.

Acho que é um sinal.

Durante o almoço os olhos febris e perdidos dela disseram – aceito.

Diabos, como ela sabia que eu estava cogitando a ideia de pedi-la em casamento?

Peixes com polenta mole e bacon e farofa caseira em nossos estômagos.

Não é que gorfamos um noivado que se aproxima?

Há Há Há, logo eu…Um picolé de limão cítrico.

Quem diria.

Estava escrito.

Ou melhor, acabo de defecar o que tinha de acontecer.

Logo eu, Há Há Há…

Há Há Há Há Há…

Volta às aulas

O útero se esvai em gotas quentes enquanto uma maré de dores transa com minha personalidade. Raiva é tudo o que sinto, angustia é tudo o que sinto, solidão é meu segundo nome agora.

O espelho me chama, mas eu o ignoro. Hoje não. Imagina… Logo eu, num dos meus dias de extrema derrota. Estou feia, acabada, desvalorizada, louca para ceder ao desencanto da vida.   Continue lendo “Volta às aulas”

Escravidão do séc XXI

Mamãe tem 52 anos. Trabalha para um branco há quase dezessete anos. Mamãe nunca teve férias ou décimo terceiro salário. Mamãe não sabe o que é feriado, natal ou comemorar meu aniversário.

Mamãe trabalha muito. Carregou até saco de cimento nas costas e rebocou paredes. Pegou chuva forte e enfrentou tempestades. Trabalhou até de madrugada para o patrão poder lucrar com sua fiel servidão. Continue lendo “Escravidão do séc XXI”

Crônica cinza de primeiro de Agosto

Cansada. Com fome. Parafusos espanados roçando no tecido de um All Star que há tempos não é mais branco. Continue lendo “Crônica cinza de primeiro de Agosto”

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