O tempo é meu inimigo?

Eu mesma já não sei de mim. Tenho vagado pelas ruas do centro olhando os relógios digitais espalhados pela cidade só esperando o tempo me dizer que está na hora. E eu fico a imaginar, que hora é essa? Hora de quê? Pra quê?

Sigo trilhas de bitucas de cigarros e isso me faz lembrar que pessoas morrem de câncer, mas mesmo assim o câncer não é tão deprimente quanto morrer pela falta de tempo. Continue lendo “O tempo é meu inimigo?”

Bateu uma onda forte

Eu não pude escolher o cardápio. Você não confiou em mim ou no meu bom gosto para comida japonesa.

Eu observei o seu recuo quando eu perguntava como foi seu final de semana.

Eu não vi você me olhar uma única vez nos olhos a noite toda. Continue lendo “Bateu uma onda forte”

Os atrasados não comem pão

Casal gay no metrô. Dois homens trocando carícias e olhares de desejo e paixão. Porém, tudo o que eu vejo é, olhares de repulsa, olhares de revolta.

As chacotas somam-se aos dedos apontados, apontamentos estes que surgem perante um atraso histórico e atemporal. Dever-se ia explicar uma concepção de desaprovação valendo dos ensinamentos de uma doutrina periódica que atravessou gerações e gerações, e iram se atravessar mais intensamente caso uma educação social salientada num conservadorismo não se altere e/ou se modifique. Continue lendo “Os atrasados não comem pão”

Leito 14

Leitos de hospitais na penumbra da morte. Um açoite, uma emboscada. Pernas quebradas, cabeças baleadas, velhos andando de mãos dadas em direção ao nada, o sangue sendo colhido numa seringa transparente, o soro pingando gota a gota direto nas veias. Eu vejo dor, eu vejo o desespero, eu sinto a senhora morte açoitando-me enquanto peno em cima de uma cama hospitalar jogada ao esquecimento num corredor qualquer, cheio de desgraça em volta. Não há muito o que se dizer… depois desta noite, não mais.

 

Olhos de tormento. Esquecimento. Lágrimas. Gritos. Sorrir, não mais!

A vida já tomada pelo tempo é a única coisa sã em Sra. Benedita; vulgo: Leito 14.

 

 

All Star Azul

Ainda me lembro do sorriso daquela mulher.

Chuva em São Paulo, transito parado, um mar de gente encharcada se amontoando em baixo de alguma meia proteção.
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Negra, eu?

Já são quase dez horas da noite e o suor ainda escorre. As veias saltitam nos olhos, pescoço e braços, enquanto a coluna é prejudicada pela repetição de: agachar, ajoelhar, limpar… agachar, ajoelhar, limpar…

Me olho no espelho e o reflexo que vejo é: revolta, dor, solidão…

Sinto minha coluna voltar a queimar, e é uma dor daquelas de movimentos repetitivos. Continue lendo “Negra, eu?”

Mantendo-se nos pilares de uma fortaleza anti social.

Íngreme e pendulo. Um amontoar de casas e vidas que se aglomeram na vastidão de um quadrante de terra. Antes barro, capim, cerrado. Hoje, pau a pique, madeira e uma ou outra de cimento e cal. Histórias, passados, antepassados que se interligam e formam uma espécie de corrente mundana natural. O que soma todas estas vidas? O que as multiplica, se as multiplica, o que o mundo fez delas para que se subtraíssem a uma parcela invisível?

Os dias vão, os anos seguem… as vezes um feijão na panela, as vezes um copo de água barrenta para driblar a fome e aquietar as entranhas famintas por uma sucessão de três dias ou mais. Daqui da minha varanda são exatamente 12:39 pm, mas ali do outro lado da grade o tempo corre diferente, os ponteiros dão voltas para trás e nenhum rumo segue em viés a uma vitória. Continue lendo “Mantendo-se nos pilares de uma fortaleza anti social.”

Verrugas e Herpes

Pessoas e suas pérolas defecadas. Pessoas e suas verrugas labiais. Pessoas e suas tripas encardidas de bactérias e fungos. Pessoas e suas manias de perder os modos em sociedade e voltarem a era primata. Continue lendo “Verrugas e Herpes”

Loba Solitária

Minha cara amada, a dor corrói os ossos, a respiração tarda a refazer-se, a mente agora cansada, desvencilha-se de uma conduta de loucura e insanidade.

Em qual toco eu fui amarrar as minhas bravezas, qual das celas eu fui montar a minha objetividade, em qual páreo eu fui julgar-me um dia merecedora de alguma vitória?

Nos campos brotam-se flores, destas flores brotam-se vidas, destas vidas, outras vidas se fazem e, das vidas que se fazem, mortes são glorificadas como espelhos de ressurreição. Hoje nada me cabe, um tempo que me recolhe como presa de águia, um olhar penetrante da vida que me consome como um falcão extremamente predador.

Sinto agora, neste exato momento, que sou uma novela, uma trama dramática, esperando por um desfecho que nunca poderá ser criado por nenhum roteirista. Uma leve brisa, que passa de capítulos a capítulos, levando com sigo uma vaidade nula. Eu interpreto pesadamente um personagem que jamais poderá ser descriado. Um baile, daqueles das grandes cortes, à fantasia, com requintes de mistério e cheiro de melancolia que embalsama os castelos. Continue lendo “Loba Solitária”

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