Que mundos te guardem e te apartem de mim…

O mundo é vasto e infinito. Quem diabos sabe dizer qual a melhor localidade para se sentar com a coluna ereta ou com o tronco em posição horizontal para escrever algo além daquilo que a mente diz para rascunhar?

Já tentei de tudo, mesmo esse tudo não sendo (quase nada). Já me dispus a trocar um quarto inteiro de lugar, já fui à feira com caderno e lápis na mão, já me fixei em bibliotecas municipais, já me desloquei a cemitérios, já me sentei ao chão em estações de mêtro na hora do rush, já visitei titias só para usar o cenário de suas casas como palco para minhas escritas, já viajei para outras cidades, já troquei de namoradas para ganhar inspirações novas, já fiquei dias sem dormir quase beirando a loucura e a demência, já escrevi em ônibus lotado passando a cem por hora em cima de lombadas, já fiz de tudo um pouco, de pouco um tudo e, ainda assim, não encontrei o lugar ideal para me sentar e escrever. Continue lendo “Que mundos te guardem e te apartem de mim…”

Anúncios

Rosas vermelhas não alteram tempestades

O útero dói. Gota a gota uma enorme poça de sangue se forma e percorre o labirinto das coxas, canelas, pés… Sinto-me quente nesta sexta-feira tão fria enquanto uma garoa fina despenca do céu camuflando-se em minhas lágrimas mornas.

Debruçada em uma ponte observo a cidade, conto os passos dados por segundo na esperança de esquecer-me de mim por um breve infinito de tempo. Ao fechar os olhos, visualizo rosas vermelhas desabrochadas, dóceis, femininas… Continue lendo “Rosas vermelhas não alteram tempestades”

– É uma rosa rubra a autora dessas linhas

“Você nunca vai aprender a ler e a escrever. Você é burra demais pra isso, eu desisto de ensinar alguma coisa pra você garota.”

Engraçado como essa frase ainda me acompanha. Como depois de tantos anos eu ainda posso ouvir em meus ouvidos as palavras duras e cruéis de M. Continue lendo “– É uma rosa rubra a autora dessas linhas”

Derivações de uma sexta-feira

3:12 da manhã. O sono não me invade, ao contrário, me mutila a mente, me castiga a carne. Penso nas atrocidades da vida, na personalidade e no egocentrismo das pessoas, em idas ao psicólogo, em porres de cerveja, em lâminas rasgando meus pulsos.
 
Tudo, tudo agora gira em torno de meu egoísmo, desde as garrafas desalinhadas até as pequenas coisas escritas em papeis amassados dentro das gavetas de minha escrivaninha, tudo gira em torno de meu egoísmo de certa forma.

Continue lendo “Derivações de uma sexta-feira”

— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

As portas soam como sinos de fabricas. Os cartões de ponto são demarcados e a liberdade atinge peitos dilacerados pelas horas hostis e deprimentes.

Atraso por atraso e os segundos correndo contra minha própria vida. Precisei pegar um ônibus qualquer para chegar até o centro, meu estomago doía pelos milésimos percorridos, encontrei bilhetes na mochila que tinha ganhado de um morador de rua, um amigo me puxou pela mochila enquanto eu passava apressada pela estação de metrô e disse: “Eai, lixo”. Continue lendo “— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta”

– A leitura que faço de mim mesma

Olhos pousados nas janelas com uma gota a pender da retina esquerda. Miragens de mim mesma correm na contramão de meu próprio corpo e espírito. É como se tudo o que sou se refletisse nessa janela respaldada pela penumbra das estações da vida. Os tímpanos se ensurdecem com o grave que toca a alma, come o ventre, pisa no próprio raciocínio lógico do termo evasão. Tudo o que eu sou é silvestre, é extinção, é mata fechada para expedição infantil militar depredatória. Bambu por bambu, cipó por cipó, galho por galho, e eu aqui de novo, pulando as arestas de uma selva desmatada pela hipocrisia. Continue lendo “– A leitura que faço de mim mesma”

Pensão alimentícia

Uma mãe chora com seu filho no colo no calor de setembro.

O menino, silencioso, observa seu próprio reflexo cabisbaixo em uma das portas do vagão.

Ao redor, pessoas perdidas rumo a suas felicidades nada utópicas. Continue lendo “Pensão alimentícia”

O jardineiro e sua tesoura

O jardineiro caminha no meio da multidão com sua tesoura de podar flores.

Trás em uma das mãos, uma toalha ensanguentada, cobrindo um ferimento profundo.

Alonga-se enquanto seus fones se encaixam nas orelhas e os raios de sol atravessa sua boina cor de carne.

Lá se vai o jardineiro, com sua mão negra escorrendo sangue.

Cabeças rolaram bem diante de minhas vistas. O jardineiro desapareceu.

Olho-me no reflexo e tudo o que eu vejo é o jardineiro abrindo um pequeno caderno de mão com revestimento vermelho e um botão dourado.

O observo…

Retiro da mochila o meu caderninho de mão: escrevo sobre o jardineiro; mentalizando sua tesoura, sendo segurada por uma das mãos.

Cerveja, panelas e tragédias

Cá estou a me lembrar da noite passada, das pernas trançando os encantos, dos óculos a serem limpos na echarpe branca, dos sapatos pretos brilhantes com laços nas pontas, da mochila com pedras suspendida nas costas, dos cachos macios com aroma de saudade, do elevador coberto por colchonetes azuis, da propaganda em cima das mesas da praça, das bocas lambuzadas de queijo, da ponte e do resgate, dos carros passando em nossas costas, do malte gelado, das crianças gritando para nós: “que inveja”, do garoto de oito anos com seu saco de cola, das digitais tocando as espinhas da pele, das lágrimas rolando em coro, da suplica pelo permanecer perante o abandono, das farpas trocadas, das magoas vomitadas ainda mornas, do banheiro público, dos olhares no espelho, da saudade bagunçada, do plano de fuga, dos pelos pubianos, do odor de sexo, do olho cutucado por dedos, da palavra: “masturbação em voz alta”, da chuva, do final de semana morgado, do fast food, dos cantos do metro, dos casais homossexuais, da mulher transexual, da esmola que não tínhamos, do frio cortando a carne, das omissões, da culpa, do julgamento, das horas avoadas, da cueca sambando dentro das calças, dos bombeiros e seus narcisismos, das câmeras apontadas para a tragédia, do estacionamento, dos bares lotados, dos cobertores sobre as cabeças, das panelas das casas bahia, da sede de se dormir junto, da vontade de adentrar o motel, dos seus seiscentos e treze outros amores, do jeito rude, do modo dramático, das sacadas, dos monumentos, da história, do teatro, das aulas da vida sendo deixadas em branco, do samba, dos ponteiros dos corações, do flagelo das nossas atuais relações, do medo, da escada rolante, das linhas de cores opostas, dos trilhos contínuos e do céu: negro como piche, claro como as estrelas.

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: