Aonde está segunda?

Reservado. Merlot. Vinho.

Um pouco mais acima uma parte de mim mais velha.

Ao chão: fios, poeira e pelos de gato.

Na cama: lençóis verdes, fronhas diferentes e cobertor de pelos.

Um varão sem cortina. Uma porta com papel e cola. Uma estante cheia de objetos e livros. Um guarda roupas de cuecas e meias.

Nossas alianças na gaveta sozinhas no escuro.

Ontem chuva. Hoje chuva.

Nós por duas noites deixando nossos corpos beberem fogo.

Você bordo. Eu escrevi.

Você fotografou. Eu fotografei.

Nós? Molhamos nossas vaginas juntas.

Nos meus olhos o arco-íris enquanto seus olhos castanhos piscavam… piscavam…

Olho uma foto preto e branco nossa enquanto lá fora o Bonfiglioli passa.

E os motores estão superaquecidos na mesma proporção que as pás estão pau pra toda obra.

Isso é casar?

Casar é afundar-se na areia e se auto enterrar?

Ou

Ceder o peito quando os braços cansam?

Uma trouxinha de lágrimas por mim escorrem, e eu não sei por que eu ainda tenho tanto medo de nós não darmos certo.

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Abocanhando saudades

De noite – Devassa!

Sirenes salpicam sobre meus poros salgados, enquanto isso uma suada sorte de mim escorre por entre golpes, ralo abaixo.

A negritude do céu esconde sua própria face deixando apenas duas estrelas apontadas para um cinturão inexistente.

Já sentiu o cheiro de um raio a três planetas de distância?

Alguém no céu assovia a palavra: chuva!

Neste exato instante tenho os pés descalços e o peito semi-desnudo.

Um ruído alarmante atravessa as vidraças de minha janela.

Não a sol no céu.
Hey rapazes, não a sol no céu.

Cuspo tártaros clandestinos viajantes de uma boca aterrorizada pela saudade, e os tártaros dizem:
– Vitoria, você não imagina como nós sentimos sua falta!

Cáries,
Sexo no gelo e;
Quarta-feira, meio morta.

Tim Tim das cores

Os mamilos são casos peculiares.
A cada tiragem de pele uma roupagem nova.

Mas o corpo nunca está nu de verdade. E uma vez que não estamos nus, estamos fadados a morrer sem liberdade.

Os pênis incham e as bolas fazem o parto das cobras.

Neste instante observo meia imagem numa televisão futurística pela metade.

E vozes geram vozes que geram vozes que geram vozes.

Duas mulheres negras andam de mãos dadas sobre os ladrilhos.

Um homem e uma mulher se beijam apaixonados bem de baixo da meia lua.

O saxofone brinca enquanto as notas se balançam…

À noite, o centro da cidade chora bem mais que flores. Mas nunca poderemos mastigar os aromas se apenas deixarmos nosso olfato para nos guiar.

E um chiclete sem açúcar, já duro, faz o formato correto de meus dentes de leite.

Um vento gelado sopra por cima de minhas coxas.

E um ser humano diz:
– Segue Jesus. O batismo é no rio, são nas águas…

E eu sinto saudades de Carolina.
Será que saudades de mim ela também sente?

À noite tá boa pro romper das ondas.

Maré?

Poesia sobre: Como não Amar

Um aceno guardado no bolso cheio de febre.

Um sorriso miúdo cansado de esperar pela arte dos encontros.

E ali havia tantos rostos e tantas vozes, mas por dois segundos tudo pareceu tão desabitado.

E os cabelos molhados combinavam com a blusa bege e o short preto.

Nu. Estava eu.
Entregue a passagem dela.

Tão depressa passou os olhos e eu sem pretensões acabei cuspindo um coração inteiro de esperanças fora.

Desejei afogar-me ao mar.

As costas dela não mudaram, continuam como sempre, tão fortes. Enquanto meus pés ganharam um tom de fragilidade.

Eu tive medo da dor esculpir em mim o nome dela.

Nossa, se ela soubesse quantas vezes eu me sentei à mesa sozinha antes do café.

Quantas vezes eu passei pela mesma praça contando os mesmos traços de hormônios e urina lembrando da gente nos domingos da vida.

Quantas vezes eu reencontrei um passado com nome de 2009.

Quantas vezes eu liguei pro mesmo número sem mesmo começar a discar.

Quantas vezes eu vi os traços do rosto dela acoplados num monte de corpos sem alma.

Fazia sol.

O cenário era praiano.

Você com seu novo amor, hetero.
Eu com meu novo amor, homossexual.

Nós depois de sete anos no primeiro dia do ano de 2018.

F-E-L-I-C-I-D-A-D-E-S.

A arte causada por tubos de tela

Há telas sem rostos.
Há telas sem gosto.
Há telas e telas…

Enquanto botamos na ponta da fronha o sabor da lembrança sem gosto, nada formamos além de caroço em línguas infestadas de calo.

E carvão não é tão quente a ponto de queimar nossas essências.

Há telas sem rostos.
Há telas sem gosto.
Há telas e telas…

E nossa própria caricatura ri de forma escrachada do produto minguado que somos.

E nos taca sal.
E nos taca água de pia.
E nos comem o rabo.

Deus que vida injusta é essa que me deixou seguir passagem?
Será que não consegue ver que minha mochila não é de viagem?

Há telas sem rostos.
Há telas sem gosto.
Há telas e telas…

Pela libertação da arte dos tubos, eu luto…

Resistência à morte ontem de mim um tanto velha.

O perigo e o paraíso é isso, são esses vértices de telas e ondas.

Nada muito apetitoso, mas uma bela imagem de fome incorrespondida.

Por enquanto serve?

Breve.

Macacos sem rabo e dedos polegares

Enquanto eu envelheço o meu próprio corpo com o preço da carne as estações vão se modificando e o resgate prometido nunca volta.

E eu tento olhar para o sol sem óculos escuros e ainda assim posso ver que o calor do ar nada tem a ver com os raios solares e sim com o calor dos corpos.

Às vezes sigo filas de modo triste da mesma maneira que outro olhar triste segue filas enormes e eu me canso, mas infelizmente há outras pessoas que apenas seguem em frente aguardando suas senhas serem chamadas.

E alguém me resume o mundo na incógnita buceta da mulher, como se a grande origem começasse nos grandes lábios e o apocalipse terminasse no clitóris.

É difícil apontar para a humanidade mostrando por onde seguir, uma vez que ninguém de fato viu o tal Jesus andando sobre as águas.

E a humanidade tem febre. E essa febre ultrapassa os mil graus celsius.
E ninguém sabe qual a droga envelopada certa para diminuir suas temperaturas.

Dedos são mísseis.
Olhos são bombas.

Você já parou pra observar o som que a chuva faz quando respinga em sua pele?

Não?

Então você ainda não sabe como tirar proveito do mundo.

Dica Literária

Prêmio Sesc de Literatura

A todos os escritores que acompanham meu blog, tenho certeza que esse ano trará bons escritos para todos nós. Então, nada melhor do que começar o ano se inscrevendo num concurso literário e conseguir publicar seu livro numa grande editora renomada e ter seu livro distribuído para toda a rede de bibliotecas e salas de leitura do Sesc em todo o país.

Então, venho compartilhar com vocês o Edital 2018 para o Concurso Sesc de Literatura. Continue lendo “Dica Literária”

No calendário: 2 de Janeiro de 2018

Ouço o fervor humano borbulhar em meus ouvidos ao mesmo tempo em que tento acender um cigarro. O vento sopra forte me impedindo de alcançar as chamas. Meus olhos cruzam as calçadas entre a Praça da República e a Rua Sete de Abril.
Levo ao pulmões e depois ao cérebro, fumaça proibida com cheiro de marginalidade.
Caminho por entre corpos ao chão, poças d’água, pessoas com pressa e baratas. Continue lendo “No calendário: 2 de Janeiro de 2018”

Feliz Ano Velho

Estava eu ali, beijando os bocais tristonhos de uma inverdade quase desfalida; quando me pus de pé ao embranquecer dos pentecostes universais traidores de minha própria sorte.

Busquei as drogas como um refugio prático a vida miserável pela qual meu sorriso não vingava, buscando sempre uma maneira eloquente de findar um coração esburacado pelas guerras que a rotina me calçavam. Entretanto, os clamores permutáveis de horas postas de joelhos semi-rachados, nada me traziam como glórias e eu estagnava ali… Contando as crostas de um irrisório despretérito. Continue lendo “Feliz Ano Velho”

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