Poesia sobre: Como não Amar

Um aceno guardado no bolso cheio de febre.

Um sorriso miúdo cansado de esperar pela arte dos encontros.

E ali havia tantos rostos e tantas vozes, mas por dois segundos tudo pareceu tão desabitado.

E os cabelos molhados combinavam com a blusa bege e o short preto.

Nu. Estava eu.
Entregue a passagem dela.

Tão depressa passou os olhos e eu sem pretensões acabei cuspindo um coração inteiro de esperanças fora.

Desejei afogar-me ao mar.

As costas dela não mudaram, continuam como sempre, tão fortes. Enquanto meus pés ganharam um tom de fragilidade.

Eu tive medo da dor esculpir em mim o nome dela.

Nossa, se ela soubesse quantas vezes eu me sentei à mesa sozinha antes do café.

Quantas vezes eu passei pela mesma praça contando os mesmos traços de hormônios e urina lembrando da gente nos domingos da vida.

Quantas vezes eu reencontrei um passado com nome de 2009.

Quantas vezes eu liguei pro mesmo número sem mesmo começar a discar.

Quantas vezes eu vi os traços do rosto dela acoplados num monte de corpos sem alma.

Fazia sol.

O cenário era praiano.

Você com seu novo amor, hetero.
Eu com meu novo amor, homossexual.

Nós depois de sete anos no primeiro dia do ano de 2018.

F-E-L-I-C-I-D-A-D-E-S.

Anúncios

A arte causada por tubos de tela

Há telas sem rostos.
Há telas sem gosto.
Há telas e telas…

Enquanto botamos na ponta da fronha o sabor da lembrança sem gosto, nada formamos além de caroço em línguas infestadas de calo.

E carvão não é tão quente a ponto de queimar nossas essências.

Há telas sem rostos.
Há telas sem gosto.
Há telas e telas…

E nossa própria caricatura ri de forma escrachada do produto minguado que somos.

E nos taca sal.
E nos taca água de pia.
E nos comem o rabo.

Deus que vida injusta é essa que me deixou seguir passagem?
Será que não consegue ver que minha mochila não é de viagem?

Há telas sem rostos.
Há telas sem gosto.
Há telas e telas…

Pela libertação da arte dos tubos, eu luto…

Resistência à morte ontem de mim um tanto velha.

O perigo e o paraíso é isso, são esses vértices de telas e ondas.

Nada muito apetitoso, mas uma bela imagem de fome incorrespondida.

Por enquanto serve?

Breve.

Macacos sem rabo e dedos polegares

Enquanto eu envelheço o meu próprio corpo com o preço da carne as estações vão se modificando e o resgate prometido nunca volta.

E eu tento olhar para o sol sem óculos escuros e ainda assim posso ver que o calor do ar nada tem a ver com os raios solares e sim com o calor dos corpos.

Às vezes sigo filas de modo triste da mesma maneira que outro olhar triste segue filas enormes e eu me canso, mas infelizmente há outras pessoas que apenas seguem em frente aguardando suas senhas serem chamadas.

E alguém me resume o mundo na incógnita buceta da mulher, como se a grande origem começasse nos grandes lábios e o apocalipse terminasse no clitóris.

É difícil apontar para a humanidade mostrando por onde seguir, uma vez que ninguém de fato viu o tal Jesus andando sobre as águas.

E a humanidade tem febre. E essa febre ultrapassa os mil graus celsius.
E ninguém sabe qual a droga envelopada certa para diminuir suas temperaturas.

Dedos são mísseis.
Olhos são bombas.

Você já parou pra observar o som que a chuva faz quando respinga em sua pele?

Não?

Então você ainda não sabe como tirar proveito do mundo.

Quando será o bastante?

Por mais que sangue escorra de narizes com cérebros apontados para baixo, tentando resgatar um gole de vida numa pia de mármore barato cor de bosta em um banheiro masculino em plena segunda-feira;
Ainda assim, não é o bastante! Continue lendo “Quando será o bastante?”

Quando o diabo atenta

Uma arcada dentaria mordisca minha bochecha direita enquanto minhas palavras sobressaem os discos. E eu vejo as pessoas do lado de dentro das janelas de plástico nos olharem meio ouriçadas, meio deprimentes, meio mortas, e mesmo assim os incisivos continuam atuando brutalmente. Continue lendo “Quando o diabo atenta”

Noite insana

Polpas solares se recolhem
Enquanto o sumo dos teus sonhos se jogam de pontes.

O suor escorre da nuca,
Lampeja pelas costas,
Aterriza nas nádegas,
Enquanto eu, tranquilamente te observo.

Em baixo das minhas unhas nefastas tem seu cheiro de puta;
Putamente em plural dócil-chocolate.

Fecho os olhos para tocar o céu da boca com minha língua em gozo adormecido;
Sinto partes de suas coxas ao esbarrar nos caninos de ontem vorazes.

Fronhas ao chão,
Olhos revirados e espuma;
O sol se fez no meio do vigésimo terceiro orgasmo
E nós aplaudimos os raios sedentos de fogo.

Observo as paredes tocadas pelos pés desnudos
E as digitais criminosas das mãos com vinte dedos de unhas ruídas sem esmalte.

Quão longe e longamente fomos juntas pelo espaço,
Não é mesmo?

Trago meus joelhos ralados de encontro ao peito,
Pego do chão o maço;
Longe observo o atraso e a insatisfação do mundo
Enquanto evaporo densamente com a fumaça e os vergões de seus poros.

Noite insana,
No ar; pouca roupa,
Na cama; laços de cobra,
Pela manhã; a cidade turva sem nenhum cantil de flores.

Te esperando pousar seus sapatos em minha mureta

Você se põe a chocar a desistência,
Enquanto você espera por um par de sapatos conhecidos e você não é rápida o bastante,
Ao menos não tão rápida quanto os pés perturbados;
Ai você conta os segundos em seu belo relógio imaginário,
E uma flor amarela gruda em seus cabelos
Enquanto outra flor amarela se ajeita em seu colo. Continue lendo “Te esperando pousar seus sapatos em minha mureta”

Minha mãe!

Bitucas em copos com cinzas
Doses de pinga antes da janta
Chicotes invisíveis
Grilhões tão bizarros como o circo;
Onde foi para a cantoria e o sorriso embranquecido desta mulher envelhecida e triste?

Horas a fio no verão
Num sofá de couro barato,
Controle remoto apontado para uma chacina televisiva
Outra mão punitiva no lombo do gato;
Onde foi parar a juventude tardia desta pobre mulher?

A igreja toca o sino
Cruzes são erguidas bem lá no alto,
Imagens de santo são jogadas ao lixo em jornais amassados,
Bíblias e louvores protestantes são desferidos em mesas de almoços fartos;
Deus, onde será que foi parar a virtude desta sagrada mulher?

Os pelos pubianos crescem e se cacheiam
O rancor,
O ódio,
A solidão
E os músculos atrofiados resumem esta mulher sem cor de esmeralda;
Tempo, o que fizestes com esta pobre alma?

Sentei sobre cadeiras de gordura e pó e me pus a escrever,
Quando fui ver já tinha reservado um espaço entre o céu
E o inferno juntamente com a figura de minha própria mãe.

Bengalas e Crucifixo

nada se solidifica
a não ser curar as veias expostas com esparadrapos e conhaque
enquanto uma tocha de sangue escorre
e as sangue sugas se mastigam em aquários de pedras coloridas.

acelere a música fúnebre da vida,
as maquinas de fazer projéteis de homens,
o processo do martelo amolecedor de carne;
nada mais restará,
se não os pedidos de socorro,
mãos a palmatória,
esponjas de bundas em bocas semi-limpas,
bengalas espalhadas pelo hall em forma de crucifixo
apontadas para o sol às exatas: 18:57 horas da tarde.

Site hospedado por WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: